Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 16/09/2020
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Dentre as inúmeras histórias mitológicas gregas está a de Narciso, um jovem que, ao ser amaldiçoado por uma deusa, passa a admirar, incansavelmente, sua imagem em um espelho d’água. Na vida real e contemporânea, cada vez mais dependentes de tecnologias, como o celular, o ser humano passou a ser um usuário constante das redes sociais e admirar a vida alheia, muitas vezes comparando a sua vida com a desses. Dessa forma, o uso de redes sociais passa a ser prejudicial à medida que o ser humano se torna um alienado em relação a si mesmo, e a opinião que o outro tem sobre ele passa a ser mais valorizada do que a opinião que aquele tem sobre si.
Em primeira análise, é evidente como nas redes sociais, a exemplo do Instagram, vive-se uma espécie de utopia digital, à medida que o que é postado retrata apenas momentos de felicidade e êxito, anulando-se momentos de frustração e infelicidade. Nessa perspectiva, para se encaixar nos padrões de certa forma hedonistas das redes sociais, um novo usuário passa a reproduzir o que vê nos perfis dos outros, perpetuando um ciclo de felicidade artificial, e como os outros escondendo momentos de fracasso. Desse modo, casos de depressão e ansiedade se tornam realidade para quem perdeu sua própria imagem e vive uma vida dupla, uma real e por vezes frustrante, e outra digital que destoa da primeira.
Além disso, devido à falta de autoconhecimento o ser humano se torna um alvo fácil da manipulação digital por meio das chamadas ‘‘fake news’’. Nesse sentido, a frase erroneamente atribuída ao filósofo grego Sócrates, Conhece-te a ti mesmo, passa a ter uma relevância ainda maior na contemporaneidade, ao passo que, adquirindo autoconhecimento o ser humano se torna menos manipulável e, portanto, menos suscetível a ser alvejado por ‘‘fake news’’ que tenham como objetivo manipulá-lo. Evidencia-se, portanto, que a falta de autoconhecimento na era digital relaciona-se com o aumento, na última década, do número de ‘‘fake news’’ propagadas nas redes sociais.
Verifica-se, portanto, a necessidade de se trabalhar o autoconhecimento. Para isso, faz-se imprescindível que o Ministério da Educação promova desde a infância, em escolas, debates com profissionais da área da psicologia com o objetivo de ensinar as crianças a se conhecerem melhor. Paralelamente, precisa-se educar os adultos em relação aos malefícios que o mau uso das redes sociais pode trazer, através de campanhas na tv e redes sociais vinculadas pelo Ministério da Saúde e com respaldo de figuras reconhecidas pelo grande público, como o Dr. Drauzio Varella. Assim, tornar-se-á possível salvar os Narcisos da vida real.