Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 26/09/2020
Na obra “1984” de George Orwell, é retratado um futuro distópico em que o Estado totalitário controla e manipula toda forma de informação e registro contemporâneo, a fim de moldar a opinião e pensamento dos cidadãos. Nesse sentido, a narrativa foca em uma sociedade controlada pela intervenção estatal na consciência individual do ser, modelando os indivíduos em prol da dominação governamental . Fora da ficção, é fato que a realidade apresentada por Orwell pode ser relacionada ao contexto social da era digital e a falta do autoconhecimento hodierno, haja vista a alienação capitalista, bem como a liquidez do século XXI.
Em primeiro lugar, para entender a relevância do tema, é fundamental compreender a alienação na sociedade capitalista como efeito do entrave. De acordo com o sociólogo Karl Marx, o ato de alienar-se no aspecto social altera a livre atividade consciente do homem, em que o mesmo torna-se estranho ao seu próprio ser, abdicando de suas vontades e pensamentos únicos. Diante do exposto, é essencial analisar a relação entre a falta de autoconhecimento na era digital e a privação do pensar, tendo em vista que essa ausência proporciona uma maior facilidade, para as empresas e indústrias midiáticas, em influenciar e modelar padrões de compras digitais, além de engendrar a forma de pensar, como visto na obra de Orwell.
Faz-se mister - ainda - salientar a liquidez contemporânea na hodiernidade como impulsionadora e agravante ao estigma. Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a falta de solidez nas relações sociais é característica da “modernidade líquida” vivida no século XXI, transformando o convívio social em situações voláteis, em que os indivíduos são mais impulsivos, abdicando de sua autonomia,. Diante de tal contexto, a sociedade marcada por essa liquidez, tende a ser mais etérea, afetando em um aspecto digital, a manipulação e o controle de pensamento, visto que a volatilidade social enfraquece o autoconhecimento e a busca pela consciência individual, acarretando na alienação Marxniana.
Portanto, indubitavelmente, diligências são necessárias para resolver esse óbice. Desse modo, urge que o Ministério da Saúde, em junção com o Ministério da Educação ,deve, por intermédio de verbas governamentais, estabelecer nas instituições escolares e em ambientes de trabalho, acompanhamento psicológico e profissionais da área para atuarem no desenvolvimento do pensamento crítico, auxiliando os indivíduos na busca pelo autoconhecimento. Ademais, cabe também à mídia, como formadora de opinião, promover, por meio de propagandas, a valorização do ser individual, com o intuito de fomentar a construção do conhecimento próprio. A partir dessas ações, atenuar-se-á, em médio e longo prazo, o impacto nocivo da ausência de autognose, e a sociedade alcançará o estágio oposto de “1984”.