Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 16/10/2020
Segundo o filósofo René Descartes, o fator que pressupõe a realidade é a capacidade de pensar, como expressou na máxima ‘‘Penso, logo existo’’. Na atualidade, com o avanço nos meios de comunicação e interação, a presença na internet tornou-se, via de regra, base para a existência, o que possibilita transformar a frase do iluminista em ‘‘Me conecto, logo existo’’. Assim, evidencia-se o papel fundamental que as redes exercem na contemporaneidade, o que implica na necessidade de conhecer a si mesmo e aos mecanismos utilizados pelas plataformas na era digital. No entanto, apesar dos avanços garantidos pela Lei Geral de Proteção de Dados e pelo Marco Civil da Internet, o Estado ainda é omisso na formação de jovens conscientes de si e dos riscos e responsabilidades da internet.
A priori, verifica-se que a educação brasileira é falha em criar alunos conscientes de si e habilitados a tomar decisões complexas e racionais. O filósofo Immanuel Kant define a maioridade como a capacidade de decidir e pensar por si mesmo, sem o auxílio de tutores, o que só seria possível com o esclarecimento da população por meio da educação e conhecimento de si. O sistema educacional brasileiro, no entanto, tende a manter a população no estado de minoridade, no qual o indivíduo não é capaz de tomar decisões por si mesmo, devido a sua formação falha e pouco voltada ao autoconhecimento, deficiente em matérias como filosofia e sociologia, que promovem a reflexão do aluno sobre o meio em que vive.
Por consequência, ao ser incapaz de efetuar raciocínios lógicos e contextualizados, a população tende a submeter-se à manipulação das redes, sendo suscetível à alienação e à propagação de notícias falsas ou sensacionalistas, amplamente presentes na internet. A revolução Técnico-Científico-Informacional, iniciada na segunda metade do século XX, trouxe consigo a ampliação dos meios de comunicação, notícias e o advento das redes sociais. Nesse contexto, o excesso de informações e dados é recorrente, sendo imprescindível uma reflexão ativa do usuário para que ele não se torne mais um na massa de alienados que compõem esse sistema marcado pela fugacidade. O autoconhecimento torna-se, portanto, fundamental no que tange à era digital, a o que demonstra a importância de uma formação holística nas escolas.
Para solucionar a problemática exposta, urge que o Ministério da Educação, por meio de alterações na Base Nacional Comum Curricular, adicione mais horas obrigatórias de filosofia e sociologia nas escolas, buscando o esclarecimento de seus alunos. Tais aulas poderiam contar com debates sobre temas pertinentes à liberdade e ao controle exercido nas redes, a fim de promover o senso crítico dos alunos e formar, enfim, uma sociedade mais autoconsciente e que possa chegar à maioridade Kantiana.