Os efeitos da obesidade na saúde pública

Enviada em 08/01/2021

No livro “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago relata uma epidemia que, ao se instaurar, intensifica vertiginosamente adversidades sociais. Atualmente, uma cegueira moral, similar à relatada no romance, impede que se enxergue a questão da obesidade e dos seus efeitos na saúde pública com a relevância que requerem, fato que prejudica o enfrentamento desses fatores. Assim, deve-se analisar a ineficácia Estatal e a banalização dos maus hábitos alimentares como principais mantenedoras desse cenário, a fim de combatê-lo por meio de políticas públicas.

Primeiramente, a ineficiência das medidas governamentais que deveriam nortear a conduta dos cidadãos é uma causa dos elevados índices de sobrepeso. Acerca disso, o iluminista Rousseau pondera que, na medida em que o Estado se exime de sua função de promover o bem comum, há a infração do contrato social. Com efeito, essa violação se verifica no contexto nacional, pois, embora a Constituição Cidadã destine ao órgão em questão a tarefa de zelar pela saúde dos indivíduos, isso não se concretiza efetivamente, em virtude de as campanhas de incentivo à alimentação saudável serem majoritariamente feitas pela TV, o que aparta milhões de brasileiros desse debate. Prova disso são dados do site “Dr. Pastore”, os quais indicam que 4 a cada 10 adultos brasileiros estão acima do peso. Logo, essa ausência governamental delega o direito à saúde ao esquecimento.

Outrossim, essa conjuntura problemática ao panorama sanitário tem como propiciadora a alienação social, uma vez que ela torna o conjunto acrítico aos padrões de alimentação. A esse respeito, a filósofa H. Arendt, na obra “a Banalidade do Mal”, defende que, em grupos pouco críticos às estruturas sociais vigentes, ações prejudiciais à própria sociedade podem se naturalizar. Nessa visão, depreende-se que a rarefeita problematização feita à ingesta excessiva de alimentos, presente na maioria das casas brasileiras, catalisa um processo em que as pessoas, justamente por normalizarem o costume, prescindam de se importar com os reflexos que ele acarreta na saúde, como doenças cardiovasculares. Dessa feita, os próprios atores sociais possibilitam que o revés persista em sociedade.

Portanto, é imprescindível que a obesidade seja mitigada no Brasil. Para isso, o Ministério da Saúde -responsável pelo resguardo da integridade sanitária dos brasileiros -, por meio de leis a serem aprovadas no Congresso Nacional, deve criar unidades de saúde especializadas na obesidade, as quais serão distribuidas por toda a Federação. Essas unidades contarão com médicos e nutricionistas, que atenderão gratuitamente indivíduos que apresentam problemas relacionados ao sobrepeso, além de informarem constantemente a população, visando ao debate coletivo. Com isso, uma sociedade que se afastará de comparações com a obra de Saramago será alcançada.