Os efeitos da quarentena e da pandemia do novo coronavírus nas crianças
Enviada em 27/10/2021
Desde os anos 60, com os estudos psicanalíticos sobre o espaço transicional, percebeu-se a importância das relações com o próximo para as crianças, principalmente ao brincar, para a internalização da cultura e das normas sociais. No entanto, desde 2020, há uma intensa paralisação desse convívio no Brasil devido à pandemia de coronavírus e consequente quarentena, impedindo que os pequenos realizem e concluam essa etapa do desenvolvimento psicossocial durante o período. Portanto, após o término do isolamento, será necessário que o Estado crie programas socioeducativos para tentar reverter esse déficit e evitar sequelas dessa situação para as próximas gerações.
Primariamente, é possível entender o período da infância como o mais essencial para o desenvolvimento de uma relação objetiva com o outro, porque é nele em que surge o “espaço transicional”, cuja formação se dá no convívio com o ambiente social. Esse termo, cunhado pelo psicanalista Donald Winnicott, define a dimensão em que se dá a cruza do mundo interior, do subjetivo, com o exterior da criança, e na qual ela absorve elementos e regras da sociedade que, ao sofrerem essa internalização, despertam a criatividade, a fantasia e a brincadeira. Devido a isso, há grande importância na interação com o próximo nessa fase, pois existe a necessidade de se por em prática esse conhecimento por meio de jogos de simulação, como os de polícia e ladrão, de enfermeiro etc.
Nesse seguimento, se essa etapa é bloqueada de alguma forma, a capacidade do sujeito de conviver de forma objetiva e criativa com o mundo exterior se torna ameaçada, como ocorre durante o período de quarentena devido à pandemia de COVID-19. Segundo dados do El País, 31% dos pais de crianças entre 2 e 8 anos notaram uma maior dependência dos filhos com a Internet. Nesse sentido, a psicóloga e professora Dra. Angela F. Weber explica que, com o isolamento, se tornou mais comum as famílias tentarem entreter as crianças com o uso das tecnologias, porém, essa alternativa não substitui as qualidades do contato social, pois o que a Web oferece é um ambiente acomodativo ao usuário e pouco convidativo à criatividade e ao espaço transicional, mantendo-o alienado em sua subjetividade.
Urge então, a fim de recuperar o periodo perdido do desenvolvimento psicossocial das crianças brasileiras, a necessidade de que o Ministério da Educação crie medidas socioeducativas nas creches e nas escolas após o pleno retorno dessas à atividade. Isso pode ser feito por meio da entrega de material com instruções de atividades em grupo que possam ser aplicadas nas turmas, visando a interação entre os alunos e a criatividade, ademais, pode-se contratar psicólogos que possam acompanhar o desenvolvimento deles. Dessa forma, é possível que se reduza os danos do repentino e longo isolamento na saúde mental dos jovens e evitar problemas a longo prazo.