Os hábitos de consumo no Brasil

Enviada em 09/04/2019

Na obra “Senhora”, o romanista José de Alencar expõe, por meio da realidade de luxo e consumo vivida pela personagem principal, o quão singular, desigual e consumista era a sociedade brasileira do século XIX, que foi extremamente influenciada pelos vícios de consumo ingleses, provenientes da Revolução Industrial. Na contemporaneidade, mesmo com o avanço dos direitos do consumidor, essa desastrosa realidade ainda se faz presente no Brasil, graças ao crescimento desordenado da publicidade inconsciente, junto à omissão do poder público nacional.

De início, pode-se lembrar que a utilização da publicidade em prol da manipulação do consumidor, não é uma invenção do século XXI; durante a Era Vargas, as propagandas eram usadas para a manutenção da boa imagem do Estado, ao utilizar a população como massa de manobra. Segundo o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), 3 em cada 10 cidadãos brasileiros das classes A e B consomem de forma consciente, dentre estes, 40,2% afirmam que se apropriam do consumismo como mecanismo de lazer e afastamento do estresse cotidiano. Esses dados alarmantes comprovam que o Brasil se vê, de fato, em uma sociedade de consumo que aproxima cada vez mais a classe dominante dos meios de produção, enquanto a classe proletária segue à margem da esfera econômica do país.

Sabe-se que a Constituição cidadã de 1988 garante pelo acesso aos direitos básicos e fundamentais do consumidor brasileiro, em contraste o governo age com imensurável descaso, permitindo a propagação de propagandas que induzem o cidadão ao consumo errôneo e exacerbado. Logo, dentro de uma esfera liberal e capitalista, todos aqueles que não detém de capital, são afastados do mercado consumidor, logo, sofrem cotidianamente com a exclusão social. Em contraponto, as classes dominantes se vêem cada vez mais afogadas numa sociedade de consumo inconsciente e nocivo. Segundo o educador Paulo Freire, “o educador se eterniza em cada ser que educa”, sob esse viés, pode-se dizer que o único caminho para acabar com a desigualdade da sociedade de classes e impulsionar o consumo consciente, é a educação de qualidade acessível a todos.

Portanto, medidas são necessárias para combater o impasse. O Serviço de Proteção ao Crédito deve exigir do poder público a garantia da fiscalização de propagandas enganosas ou nocivas. Para isso, deve-se criar um sistema público de vigilância publicitária nos meios de comunicação. É imprescindível  também que haja a implantação de campanhas nacionais de conscientização popular dentro das comunidades, que contarão com a presença de psicólogos, especialistas do consumo e educadores, que juntos atuarão no combate à desigualdade através de palestras e projetos de inclusão social, facilitando a manutenção da pluralidade e dignidade em território nacional.