Os impasses éticos e morais do uso de Inteligência Artificial
Enviada em 05/10/2020
No romance “Androides sonham com ovelhas elétricas? ”, do escritor americano Philiph Dick, é narrada a história de um futuro distópico em que a tecnologia evolui de tal modo que se torna impossível diferenciar humanos de andróides. Dessa forma, o autor faz uma reflexão sobre a evolução da ciência e seus impactos na humanidade. Fora da ficção, o uso da Inteligência Artificial - IA, tem se tornado cada vez mais comum e com ela surgem problemáticas como o monitoramento das informações dos usuários e a falta de privacidade, sendo esses problemas relacionados à realidade do Brasil, seja pela negligência governamental, seja pela responsabilidade social.
A princípio, é incontestável que a inoperância estatal esteja entre as causas do problema. Poucas são as políticas públicas que protegem os brasileiros dos complexos contratos de utilização de dispositivos de Inteligência Artificial, que na maioria das vezes são aceitos sem ser lidos. Nesse prisma, de acordo com o filósofo Johm Locke, configura-se uma violação do “contrato social”, já que o Estado não cumpre sua função de garantir o direito à privacidade dos cidadãos. Decerto, isso se evidencia nos algoritmos utilizados para sugerir produtos na internet baseados nas informações pessoais, isso demonstra que a Inteligência Artificial também é utilizada para espionar consumidores e aumentar lucros privados.
Outrossim, destaca-se a cultura da ignorância perpetuada por parte da sociedade, que, muitas vezes, devido ao senso comum, não compreende os malefícios de ter a privacidade violada por aplicativos e dispositivos de Inteligência Artificial. Isso está de acordo com o pensamento de A. Schopenhauer de que os limites do campo da visão de uma pessoa determinam seu entendimento a respeito do mundo que a cerca. Tal fato pode ser observado na pesquisa realizada pela Universidade de Stanford que diz que 97% dos usuários não leem contratos e mesmo assim concordam com eles abrindo brecha para abusos de corporações e gerando um prejuízo social incalculável.
Diante desse cenário, fica evidente que os problemas causados pela Inteligência Artificial são resultado da ingerência estatal aliada a ignorância social. Logo, é mister que o Ministério da Ciência e Tecnologia defina as diretrizes éticas de operação de IA’s, por meio da criação de uma lei que aborde especificamente esse tema, a fim de atenuar os abusos cometidos pelas corporações privadas, sendo isso necessário para resolver os impasses éticos e morais do uso de Inteligência Artificial, para que os impactos previstos por Philip Dick em seu universo distópico sejam evitados.