Os impasses éticos e morais do uso de Inteligência Artificial

Enviada em 20/11/2020

A célebre frase “no meio do caminho tinha uma pedra”, cunhada no poema de Carlos Drummond, retrata as intempéries que surgem na jornada do eu lírico, as quais, metaforizadas como pedras, obstruem o percurso de sua vida. Fora da ficção, tal poesia se reflete no contexto atual, já que, no meio do caminho dos impasses éticos e morais do uso da Inteligência Artificial (IA), existem pedras. Diante dessa perspectiva, é preciso assumir a postura de um geólogo, com a intenção de analisar as medidas que precisam ser aplicadas para que as rochas, ora da negligência do Estado, ora da alienação, sejam levadas ao intemperismo.

Vale destacar, de início, que a desídia governamental corrobora para a vulnerabilidade dos cidadãos. Isso porque, segundo Aristóteles, em seu livro “Ética a Nicômaco”, “a política existe para preservar a felicidade da nação”. No entanto, o cenário atual rompe com o ideal proposto pelo filósofo, visto que, de acordo com o historiador Leandro Karnal, nos últimos 30 anos, as tecnologias artificiais – mais rápida e eficaz que os humanos – assumiram a maior parte das profissões, a exemplo dos tradutores de línguas estrangeiras, o que acarretou, nesse período, um aumento de 37% do desemprego. Dessa maneira, vê-se a necessidade de um maior apoio do poder público para que os cidadãos estejam prontos para as mudanças causadas pelas máquinas hiperinteligentes.

Faz–se mister, ainda, salientar que a IA potencializa a alienação social. Isso pode ser explicado pelo fato da coletividade nupérrima viver em um “Estado de Anomia”, definido pelo sociólogo Émile Durkheim como um espaço de descontrole social, em virtude do uso inadequado das tecnologias. Em consequência disso, conforme o médico Dráuzio Varella: cerca de 64% da população brasileira está viciada nas redes sociais – faceboock e instagran – em razão de softwares que manipulam as ações das pessoas, seja com apoio da indústria cultural, seja pelos algoritmos que promovem vendas de marcas poderosas como a nike e a adidas. Desse modo, evidencia-se que a alienação constitui um atendado à democracia, pois provoca transgressões aos valores éticos e morais da sociedade.                    Portanto, com o intuito de mitigar os impactos gerados pela IA no Brasil, cabe ao Governo criar políticas públicas, mediante leis trabalhistas - que determinem um número mínimo de funcionários para cada empresa, tendo como base sua área de atendimento -, a fim de garantir oportunidades de trabalho às pessoas. Ademais, tais ações devem ser realizadas em parceria com as escolas, por intermédio de aulas sobre os prejuízos da alienação, em que professores e psicólogos estimularão o pensamento autônomo dos alunos, com a finalidade de proporcionar o bem-estar social. Destarte, o caminho tornar-se-á livre, pois, como disse a poetisa Cora Coralina: “Com as pedras atiradas, construí a minha obra”.