Os impasses éticos e morais do uso de Inteligência Artificial
Enviada em 25/05/2021
No filme “Ex-Machina”, a protagonista é uma androide artificalmente inteligente, que, através de meios moralmente perversos, consegue escapar do estabelecimento onde era mantida. Ao longo da trama, é revelado que a robô evoluiu de acordo com os ideais éticos apresentados através de dados providos por programadores, se autoconfigurando sem nenhuma fiscalização humana. Fora da ficção, a obra dialóga com os impasses éticos e morais do uso de inteligência artificial, dado que esses sistemas são alheios à ética e ao existencialismo, e, portanto, devem estar sujeitos a um tolhimento humanizado.
Primordialmente, vale pontuar o desprovimento desses sistemas operacionais da capacidade de análise crítica, empatia ou questionamento moral, pois são capazes de assimilar o mundo apenas através de códigos e algarismos. À vista disso, consoante ao sociólogo Emanuel Levinas, a ética tem como princípo básico a alteridade, ou seja, o gesto ético é composto pelo autorreconhecimento em outros indivíduos. Nesse sentido, por possuírem perfil antipático, condenadas à indiferença em relação a outros indivíduos, característica míster para o seu funcionamento imparcial, as inteligências artificiais possuem incapacidade ética, logo, se apropriam do viés ético representado pelos dados que lhe são apresentados, dados estes que estão sujeitos à absorção de ideais imorais presentes na sociedade.
Outrossim, o filósofo existencialista Jean Paul Sartre afirma que a essência de um ser, sua característica mais importante, é construída pelas decisões tomadas ao longo de sua vida. Posto isso, inteligências artificiais são inerentes ao aprendizado de máquina e suas escolhas são condicionadas ao que jaz em seus bancos de dados, sendo impossibilitadas de tomarem decisões arbítrarias, e, por conseguinte, de se encaixarem no existencialismo filosófico. Logo, sua essência se trata da função que lhe é atribuída e sua existência se limita em executa-la, sem levar em consideração implicações morais ou éticas. Destarte, a responsabilidade sobre o viés social de um software é pertinente aos humanos, visto que estes tomam decisões com livre arbítrio, baseando-se em seus princípios morais.
Dessarte, é míster que o Estado tome providências para amenizar estes impasses no uso da inteligência artificial. Para isso, é imperiosa a criação de um conjunto de leis, por meio do Legislativo, com o propósito de garantir o monitoramento dos vieses repassados aos softwares, além de gerenciar a gestão das informações usadas por esses sistemas, com o propósito de construir considerações éticas nesses produtos tecnológicos. Nelas, serão pontuadas a necessidade da supervisão humana sobre o aprendizado de máquina, com o objetivo de filtrar possiveis tendências nocivas ou aversivas, além de limitar as atividades destes softwares, se baseando nas possiveis consequências de uma falha moral. Somente assim será possível realizar a integração lúcida desses programas operacionais.