Os impasses éticos e morais do uso de Inteligência Artificial
Enviada em 21/06/2021
No filme Patch Adams, um médico trabalha voluntariamente num hospital para crianças com câncer. Essa representação, por sua vez, demonstra os benefícios desse ato ao relacionar as ações do médico à melhora de seus pacientes. No Brasil, no entanto, o cenário que impera é o de desvalorização da voluntariedade. Isso ocorre tanto por condições estruturais da sociedade brasileira quanto pela ausência de estímulo do próprio Estado.
Primeiramente, é importante salientar a influência das condições socioeconômicas na realização de atos sem fins lucrativos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o nível de escolaridade está diretamente relacionado ao grau de engajamento em causas humanitárias. Esse fato, num país que retornou ao mapa da fome em 2020 como o Brasil, demonstra que grande parcela da população não apresenta meios pelos quais prestar serviços voluntários sem se prejudicar. À medida que desigualdades permeiam o país, ações beneficentes são deixadas em segundo plano, vistas somente como possibilidades utópicas praticáveis somente em condições fossem mais favoráveis, o que desestimula sua realização.
Nesse sentido, o Governo Federal demonstra clara negligência de seu papel de propulsionador de atos humanitários populares. Em julho de 2019, o Estado brasileiro implementou o projeto “Pátria Voluntária”, sob comando da então primeira dama Michele Bolsonaro. Essa proposta, apesar de evidenciar certa tomada de responsabilidade por parte da instituição governamental, foi ineficaz por conta da baixa divulgação realizada, principalmente entre os mais jovens, que apresentam a menor taxa de adesão a agendas sociais. A desinformação no que tange a essas campanhas, principalmente em ambiente escolar, dificulta a ciência da necessidade dos atos voluntários e cria a ilusão de dissociação do todo, o que impede que os indivíduos desenvolvam um senso de dever para com o próximo e corrobora com a baixa relevância dada ao trabalho voluntário na atualidade.
É inegável, portanto, como a precariedade em que vive grande parcela dos brasileiros, junto à ineficácia de seu Estado, contribui para o atual panorama de desvalorização de projetos sem fins lucrativos. Destarte, é mister que o Ministério Público, mitigador das discrepâncias sociais, em associação com ONGs, revertam o cenário desestimulador para o trabalho voluntário por meio de palestras realizadas em escolas com auxílio de integrantes de ONGs, para que, ao mesmo tempo em que haja a conscientização da importância do trabalho desempenhado por esses órgãos, estimule-se o engajamento por parte dos alunos, assim garantindo um incipiente senso de dever para com os mais vulneráveis. Desse modo, possibilitar-se-á a reprodutibilidade de ações como as do filme.