Os impasses éticos e morais do uso de Inteligência Artificial

Enviada em 30/09/2021

No longa “Tempos Modernos”, o protagonista Charles Chaplin vivencia a substituição de trabalhadores por máquinas em prol da acumulação de capital. Quase um século depois, esta ainda é a base da economia global, a qual passa a contar com mais uma ferramenta de supressão humana: a Inteligência Artificial. Destarte, a ganância das instituições no âmbito do capitalismo, em conjunto com a ineficiência governamental, corroboram a não delimitação de critérios formais para a aplicação desta tecnologia. Portanto, é imperativo analisar os impasses éticos e morais do uso da inteligência artificial no mundo hodierno.

Em primeira análise, resgata-se o aspecto supracitado no que diz respeito à ineficiência governamental. Nessa perspectiva, apesar da quantidade exorbitante de leis existentes no Brasil e no mundo, a aplicabilidade da Inteligência Artificial extrapola os limites impostos pelos órgão legisladores, o que ratifica o pensamento do filósofo René Descartes de que as leis surgem à medida que os crimes perturbam a ordem. Assim, é urgente a reação do poder público no que tange à regulamentação de atividades correlacionadas a este novo cenário.

Ainda, a ganância das instituições frente à dinâmica do acúmulo de capital atua como um catalisador do problema. Isso ocorre, principalmente, devido à lógica de consumo atual, ilustrada pelo conceito de modernidade líquida do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, segundo o qual as relações sociais na modernidade se mostram frágeis frente à substituição da lógica moral pela lógica de consumo, qualificando o ser humano como um objeto. Dessa forma, a supervalorização das máquinas, acompanhada da objetificação humana, configuram um terreno fértil para impasses éticos e morais. Em vista disso, faz-se urgente delimitar a esfera de atuação tecnológica da Inteligência Artificial.

Diante do exposto, é impreterível a ação dos expoentes legislativos globais para cessar os impasses éticos e morais causados pela Inteligência Artificial na contemporaneidade. Para tanto, é necessário que a Organização das Nações Unidas (ONU), em conjunto com os governos locais, promovam a conscientização do corpo social, o que é factível através da realização de fóruns internacionais com especialistas em tecnologia, os quais devem elucidar os impactos desta ferramenta com a finalidade de evitar seu uso indevido pela sociedade. Desta forma, será possível garantir a relação harmônica entre humanos e tecnologia, para que a situação vivenciada por Charles Chaplin não encontre eco nos próximos séculos.