Os perigos da alienação parental

Enviada em 24/10/2019

Em meados do século XX, o artista plástico Cândido Portinari retratou na obra “Os retirantes” uma família que sai de uma região à outra em busca de condições melhores de vida. Com o objetivo de evidenciar o cotidiano do Brasil, o autor denuncia os problemas sociais do país. Semelhante ao cenário, muitos brasileiros protagonizam, hodiernamente, uma peregrinação em busca de uma boa convivência em família. As demandas para findar a alienação parental, no entanto, são deturpadas devido à inobservância governamental e à lenta mudança da mentalidade social intrínsecas ao impasse.

A princípio, a negligência do Estado é um fator relevante quando observamos a violência psicológica contra familiares. Nicolau Maquiavel, em “O Príncipe”, afirma que um governante tende a tomar decisões que mantenham sua posição de liderança. Desse modo, é esperado que problemas como a alienação parental, que possuem pouco apelo eleitoral, ganhem menos investimentos do Governo, uma vez que existem pautas mais populistas. Logo, o poder encontrado pelas autoridades ao se firmarem em suas posições não os motiva a investirem em leis mais rigorosas e fiscalizações mais firmes. Assim, a manutenção das posições dos gestores ocorre no Brasil às custas da impunidade conferida à muitas agressões.

Outrossim, além do descaso do sistema punitivo, há como agravante valores perpetuados na sociedade brasileira. Consoante à Teoria do Habitus, de Pierre Bourdieu, nossas práticas são resultado de condições culturais específicas de um corpo social. Dessarte, o ato de prejudicar a imagem de um familiar para crianças e adolescentes, caso que ocorre repetidamente nos lares há décadas, ainda ecoa na atualidade e gera um ciclo que deve ser desfeito. Hoje, o termo que surgiu e é estudado desde 1985 ainda possui raízes e afeta negativamente a saúde mental e emocional de muitas crianças. Desse modo, uma mudança nos valores da comunidade é essencial para que tal agressão psicológica, que foi considerada crime em 2010, não seja um obstáculo a ser enfrentado ao longo das gerações.

Depreende-se, portanto, que a questão é grave e deve ser findada. Para isso, cabe ao Governo criar postos de denúncia específicos para casos de abuso parental, que gere maior movimentação para criação de leis mais abrangentes e fiscalizações mais firmes. Ademais, cabe à escola ampliar a visão de mundo do indivíduo por meio da inclusão de palestras e aulas específicas de como identificar abusos por parte de seus tutores. Assim, os alunos serão instruídos a reconhecerem atos inadequados e informarem a outros responsáveis, a fim de que, através da reflexão do ambiente, eles possam contribuir para mudanças e melhorias na sociedade. Dessa forma, será possível que as obras de Portinari não transmitam, ainda hoje, o Brasil do século XX.