Os perigos da alienação parental

Enviada em 08/01/2020

No episódio “Arkangel” da série televisiva “Black Mirror”, uma mulher implanta um dispositivo em sua filha, o qual permite restringir o que a menina vê por meio de um tablet. Fora da ficção, muitos pais se portam de maneira análoga ao tentar controlar com quem seus filhos se relacionam e convivem, ao interferir em visitas e conversas desses. No entanto, a alienação parental prejudica o desenvolvimento da criança que a sofre, visto que a mesma cresce limitada de vivências e tem fragilizada a própria saúde emocional por essa manipulação que a vitimiza.

A priori, é válido ressaltar que o óbice da problemática está na dificuldade de formação do indivíduo que presencia essa situação. De acordo com o filósofo Hegel, a família é responsável por atribuir valores éticos às pessoas, o que não ocorre em um ambiente com a ausência de figuras importantes, como os pais, que são os primeiros moldadores de caráter, e na presença de um genitor que promove abuso moral da criança. Não obstante, a falta de atenção dos familiares afastados tende a ser suprida através de brinquedos, viagens, e agrados, os quais contribuem para a distorção dos valores do jovem, que passa a ser “comprado”. Desse modo, é perceptível que os traumas causados na infância pelo distanciamento forçado promovem efeitos à longo prazo na personalidade das vítimas.

Além dos transtornos deontológicos, os distúrbios psíquicos também são ocasionados por essa manipulação comportamental. Para substituir a presença do pai ou da mãe, esses adolescentes se isolam adquirindo uma postura anti social, que gradativamente pode evoluir para um quadro de ansiedade e depressivo. Segundo pesquisas, a taxa de suicídio entre adolescentes estadunidenses de 16 a 19 anos de idade triplicou nos últimos anos, sendo que de um em cada quatro suicídios ou tentativas de auto-extermínio, três ocorreram em lares de pais ausentes ou distantes. Esses dados revelam que a vulnerabilidade deixada pelo absenteísmo parental na infância refletem na saúde mental jovem e adulta, o que configura a alienação parental como uma espécie de relacionamento abusivo.

Infere-se, portanto, a necessidade de atuação para reverter o  impasse. Para isso, cabe ao Ministério da Saúde em colaboração com o Ministério da Educação promover a criação de um módulo de aula, ministrado por psicopedagogos, que aborde assuntos como a depressão, a ansiedade, e os tipos de abusos que são sofridos e ensine como amenizar e lidar com os efeitos desses, para não gerar danos irreversíveis a quem sofre.  Além disso, os diretores das instituições devem ser treinados para analisar e identificar nas crianças comportamentos comprometedores, com a finalidade de reportar a outros órgãos casos graves de alienação parental. Assim, o déficit será combatido precisamente, e o “Arkangel” tornar-se-á apenas um mecanismo de segurança, e não de manipulação.

Tais medidas visam combater o déficit precisamente.