Os perigos da indústria farmacêutica

Enviada em 31/08/2019

O personagem principal do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, criado pelo escritor Machado de Assis, criou seu próprio emplasto anti-hipocondríaco, ou seja, um remédio que curaria todas as doenças. No entanto, fora do âmbito ficcional, esse produto não atenderia as expectativas da indústria farmacêutica, uma vez que a tendência contemporânea de lucro visa o aumento do consumo de medicamentos pela população, o que acaba por influenciar a prática da automedicação, fatores que, unidos, geram riscos à saúde da sociedade brasileira.

Nesse contexto, é possível analisar que o setor farmacêutico influencia no crescimento da compra de medicações pelos brasileiros. Segundo o sociólogo Theodor Adorno, o sistema capitalista visa a obtenção de capital por meio do estímulo à cultura do consumo. Essa teoria compreende a realidade de produção das empresas farmacêuticas, pelo grande investimento em publicidade, que impulsiona a venda dos produtos. Isso pode ser comprovado por uma pesquisa realizada em 2019, pelo IBOPE, a qual diz que a televisão concentrou 71% dos valores destinados para a compra de espaço publicitário, com o objetivo de expor os gêneros medicamentosos de maior interesse popular. Com efeito, as pessoas tendem a consumir mais remédios por causa do apelo midiático.

Além disso, esse ramo industrial possibilita o exercício da automedicação entre os brasileiros. De acordo com o Conselho Federal de Farmácia, o livre uso de remédios é um hábito comum à 77% dos indivíduos no país. Esses dados são consequência  da venda de medicações sem prescrições médicas, como analgésicos, e do acesso às informações sobre doenças na internet, as quais levam as pessoas a se medicarem de acordo com textos, em grande parte, sem comprovação profissional. Logo, a população pode fazer uso incorreto dos medicamentos, seja por não tratarem o problema principal, seja por não entenderem os compostos presentes, os quais podem gerar danos à saúde.

Infere-se, portanto, que a ação lucrativa e a influência midiática produzidas pelas indústria farmacêutica traz riscos ao bem-estar social. É imprescindível, então, a ação do Ministério da Saúde, órgão administrativo federal responsável pela assistência à saúde dos cidadãos, na modificação da regulamentação sobre a livre venda de remédios mediante multa às empresas que não aderirem. Essa proposta, permitida por meio do investimento do erário em fiscais que garantirão o projeto, terá o objetivo de limitar a compra em grande quantidade de determinados medicamentos pelos civis, com a obrigatoriedade de apresentação de prescrição médica após ultrapassado o limite. Desse modo, o consumo excessivo desses fármacos será reduzido e ideias como a de Brás Cubas não precisarão se tornar realidade.