Os perigos da indústria farmacêutica
Enviada em 25/06/2020
No século 19, o evolucionista Charles Darwin teorizava sobre a “seleção natural” das espécies, em que o indivíduo mais adaptado ao ambiente sobrevive. De forma análoga a isso, a Medicina desenvolveu medicamentos que contrariam tal seleção, de forma a prolongar a qualidade de vida. Diante disso, a sociedade atual lida com a popularização da indústria farmacêutica, que contribui indiretamente para a automedicação dos consumidores e a dependência de remédios.
De acordo com o filósofo Michel Foucault, os indivíduos de uma sociedade capitalista estão submetidos a uma “docilização dos corpos” comandada pelas figuras de poder. Com isso, as pessoas são induzidas a um determinado comportamento inconscientemente, favorecendo uma manipulação que visa o lucro. Nesse cenário, um dos maiores mecanismos de poder atualmente é o marketing e a propaganda advindos do mercado de medicamentos que têm o poder de induzir ao consumismo de remédios. Com isso, as ofertas de medicamentos sem prescrição médica resultam no crescimento da automedicação pela população, o que configura uma questão de saúde pública, tendo em vista que todo medicamento deve haver prescrição médica ou orientação de um profissional farmacêutico.
Em segundo plano, um fator de consequência do marketing farmacêutico, além da automedicação, é o “mascaramento” de doenças possivelmente desconhecidas pelos consumidores, o que pode originar a dependência conhecida como hipocondria. De acordo com pesquisa da empresa Kantar, os remédios é o segundo produto mais visado pelos brasileiros na semana da Black Friday, em que diversas lojas vendem produtos com desconto. Nesses casos, é comum o uso indiscriminado de analgésicos que diminuem as dores de forma temporária, de forma a postergar a ida ao médico. Com isso, há o crescimento de doenças que se tornam invisíveis, logo, a qualidade de vida da população se encontra sob ameaça pelo consumo excessivo de medicamentos. Dessa forma, tal indústria atua de forma contraditória, pois tem o poder de estimular doenças, prejudicando a qualidade de vida da população.
Tendo em vista os perigos da indústria farmacêutica, como a indução ao consumismo de medicamentos e a hipocondria, o poder Legislativo deve impor limites ao marketing de medicamentos com a criação de leis que regulamentem tal mecanismo, por meio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, para que o impacto seja mínimo na vida dos consumidores. Paralelamente, o Ministério Público Federal deve atuar na fiscalização de tais propagandas, aplicando multas se necessário, de modo a impedir tal manipulação que leva ao consumismo, como a teorizada por Foucault. Ademais, a própria indústria farmacêutica deve criar campanhas com o intuito de estimular exames de rotina, de forma a impedir o disfarce de doenças e a dependência de medicamentos.