Os perigos da indústria farmacêutica

Enviada em 21/06/2020

No livro “Inferno” de Dan Brown, o simbologista Robert Langdon é imerso na obra Divina Comédia de Dante Alighieri e, ao decorrer do enredo, tenta impedir a propagação de um arma biológica desenvolvida pelo cientista Bertrand, que objetivava dizimar parte da população global. Consoante à ficção, em cenário hodierno, a indústria farmacêutica age de forma análoga ao cientista da narrativa e, impulsionada pelo capitalismo e pela ascensão tecnológica, apropria-se de artifícios ilegítimos para induzir o consumo de medicamentos em larga escala e sem orientação médica, suscitando, assim, uma crise de saúde mundial.

Primordialmente, pode-se inferir que o ideal de acumulação de capital por parte das indústrias farmacêuticas detém protagonismo na formação do quadro problemático. Destarte, obtendo alicerce na corrente positivista do século XIX, o progresso atrelado ao desenvolvimento científico e econômico, baseado no ideário comtiano, configurou estímulo à consolidação de um sistema que pretende adquirir consumidores, deixando em segundo plano aspectos humanos como a qualidade de vida do público-alvo ou os riscos do produto oferecido. Nessa conjuntura, as indústrias de fármacos, visando a lucratividade máxima incentivada pelo sistema, vendem não apenas remédios, mas sugestionam sintomas em rede e, por meio de publicidade, atraem consumidores e criam hipocondríacos.

Sob outra análise, além da acumulação de capital, o advento da internet e sua alta densidade de informação contribuem para a automedicação fomentada pela indústria farmacêutica, tornando recorrente a dispensa do auxílio profissional, substituído pelo conhecimento exposto em rede. Paralelamente, o fato histórico da descoberta da radioatividade, que marcou o século XX com propagandas incentivadoras de aceitação popular da radiação como componente de produtos, é visualizado de forma semelhante em cenário atual, notório pela presença de remédios ofertados à população e promovidos de forma receptiva pela internet, sendo esta um instrumento intensificador da influência publicitária preexistente.

Diante do supracitado, é mister que o Ministério da Saúde aja como força resolutiva, utilizando do artifício da internet para reverter o quadro, por meio de propagandas que exponham os riscos ligados ao autodiagnóstico e à automedicação, juntamente com o incentivo à procura por profissionais da saúde legitimados para correto direcionamento farmacológico, a fim de barrar o vilipendio à saúde provocado pela regência capitalista das indústrias farmacêuticas e deslocar o impasse da inércia. Desse modo, com as medidas tomadas, é possível que a arma biológica do cientista Bertrand não se propague em contexto real e limite-se à ficção,