Os perigos da indústria farmacêutica
Enviada em 10/11/2020
Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago descreve uma epidemia de cegueira que, ao se instaurar, intensifica vertiginosamente adversidades sociais. Similarmente, fora da literatura, uma cegueira moral impede que se enxergue a gravidade da indústria farmacêutica e de suas consequências na saúde dos brasileiros. Nesse sentido, cabe analisar o papel da omissão governamental, bem como da alienação social na manutenção desse cenário deletério, a fim de combatê-lo por meio de políticas públicas.
Primeiramente, a inoperância Estatal na esfera em questão possibilita que as grandes empresas se utilizem de estratégias para induzir à compra de seus medicamentos. Sobre isso, o filósofo iluminista Rousseau ponderou que, na medida em que o Estado se exime de sua função de promover o bem comum da sociedade, há a infração do contrato social. Com efeito, essa violação se evidencia na fraqueza de leis que limitem o uso de imagens que vinculam a felicidade a um determinado fármaco, por exemplo, o que faz dele um bem a ser consumido sem a real necessidade. Logo, tal ausência do mecanismo governamental contribui não só para o descaso com o corpo social, como também delega o direito à saúde ao esquecimento.
Além disso, a alienação social possibilita a instauração da indústria farmacêutica, uma vez que torna as pessoas facilmente atingíveis pelo fenômeno. Segundo a filósofa H. Arendt, no livro “A Banalidade do Mal”, em uma sociedade cujos princípios não são amplamente debatidos de maneira crítica pelos indivíduos que a compõem, certas ações prejudiciais ao conjunto podem se naturalizar. Nessa visão, depreende-se que a generalizada rarefação de debates acerca do uso irrefletido e desmedido de medicamentos e de seus efeitos catastróficos na saúde dos indivíduos catalisa um processo no qual essa conjuntura deixa de ser vista como deletéria.
Portanto, é imprescindível que a indústria farmacêutica seja combatida no Brasil. Para isso, o Ministério da Saúde - no papel de responsável pela proteção e promoção da saúde no território nacional - deve instituir um levantamento dos medicamentos que são objeto de apelo publicitário pelas empresas e inviabilizar certos apelos visuais, emocionais ou estéticos. Isso pode ser feito por unidades com médicos e psicólogos que analisarão a necessidade de advertências e eventuais proibições. Ademais, as próprias unidades podem produzir vídeos que serão veiculados pelas mídias digitais e fornecerão informações acerca dos riscos aos quais a automedicação submete a saúde, os quais subsidiarão debates entre os entes sociais. Feito isso, uma sociedade cujos princípios se afastarão de comparações com a obra de Saramago será alcançada.