Os perigos da indústria farmacêutica

Enviada em 09/12/2020

O romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, retrata a busca do protagonista pela criação de um emplasto que curasse a melancolia humana, tendo como ambição a procura pelo reconhecimento, além da compensação financeira. De forma análoga, inúmeras indústrias farmacêuticas na hodiernidade fazem uso de métodos semelhantes, usando a saúde como forma de obter lucro. Tal problema é acentuado pela automedicação, assim como devido às mudanças nas configurações da sociedade. Faz-se necessário, portanto, debater os aspectos sociais da questão, em prol do bem-estar coletivo.

Diante desse cenário, é importante ressaltar os mecanismos adotados pela indústria para estimular o consumo de medicamentos, como a criação de uma histeria coletiva, visto que, por medo, muitas pessoas optam pela automedicação, em busca de prevenir doenças futuras. Prova disso foi um estudo divulgado pelo jornal “O Estadão”, o qual dizia que, em cinco anos, houve um aumento de 42% nas vendas de remédio em território nacional. Destarte, observa-se como o pânico gera um crescimento nas vendas. Embora o consumo desmedido provoque danos irreversíveis aos pacientes, é uma grande fonte de lucro para grandes corporações, o que explica a continuidade do problema.

Por conseguinte, ainda convém lembrar como as novas dinâmicas da sociedade são fatores preponderantes para a perpetuação do entrave, uma vez que as exigências de trabalho e produtividade constante levam muitos indivíduos à exaustão, o que favorece a recorrência a medicamentos. Isso pode ser explicado pelo conceito de “Modernidade Líquida”, elaborado pelo filósofo Zygmunt Bauman, o qual caracterizava a sociedade contemporânea por sua fluidez e mutabilidade. Nesse viés, a busca pela adaptação se reflete no consumo cada vez mais frequente de ansiolíticos e antidepressivos, o que resulta em uma dependência, acentuando a problemática.

É perceptível, dessa forma, que a indústria farmacêutica apresenta riscos para a sociedade. Por isso, é imprescindível que as escolas auxiliem na conscientização de seus alunos, por meio de aulas direcionadas, nas quais profissionais qualificados expliquem os riscos do consumo desenfreado de remédios, a fim de reduzir a automedicação. Ademais, é necessário que a mídia, como formadora de opinião, introduza o tema em filmes e documentários, alertando a população para o problema e para as estratégias usadas para a manipulação, com o intuito de formar cidadãos mais conscientes. Dessa maneira, será possível minimizar o entrave, assegurando que os objetivos de Brás Cubas possam permanecer apenas na ficção.