Os perigos da instabilidade política e o surgimento de um herói patriota

Enviada em 23/04/2023

No livro “Memórias do Cárcere”, Graciliano Ramos mostra os riscos de se apostar em um herói patriota como solução para as mazelas da pátria, já que em 1937, através de um golpe de estado, Getúlio Vargas instituiu a ditatura do “Estado Novo”. Defende-se, assim, que movimentos políticos que optam por salvadores da nação, ao arrepio do jogo democrático, são o caminho mais rápido não só para a instabilidade política como também para ditaduras sangrentas.

Nesse sentido, pode-se lembrar tanto do “Estado Novo” como do golpe de 1964, porque, nesses momentos, com apoio de parcela considerável da sociedade civil, instalaram-se ditaturas com a justificativa de se conter o perigo comunista. No caso dos “Anos de Chumbo”, instalou-se uma ditadura que se estendeu por vinte e um anos, apelando para um sentimento de patriotismo extremo, cujo lema era: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Por conseguinte, montou-se um sistema político de exceção baseado em atos institucionais. Logo, não havia garantias constitucionais, ou seja, qualquer um poderia ser preso sem o devido processo legal. Desta forma, segundo a Comissão Nacional da Verdade, houve 434 militantes mortos e desaparecidos, porquanto nesse período era flagrante o desrespeito aos direitos humanos consagrados pela “Declaração Universal dos Direitos Humanos”.

Outrossim, a arbitrária prisão de Graciliano durante o “Estado Novo”, sem nunca ter sido formalmente acusado por nenhum crime, mostra como são perigosas para o povo as saídas políticas realizadas ditatorialmente, uma vez que o cidadão fica sem o amparo do devido processo legal. Por isso, sujeito a torturas e abusos de todo o gênero, visto que, como narra o célebre escritor, na prisão, os carcereiros afirmavam: “vocês aqui não tem nenhum direito”.

Portanto, urge que a escola mostre que a democracia é essencial para se evitar os perigos de heróis patriotas. Para isso, deve-se lançar a campanha “Democracia sempre”, com a contratação de sociólogos e históriadores para ministrar cursos obrigatórios sobre o tema. Paralelamente, deve-se levar pessoas que sofreram torturas para ministrar palestras de alerta às novas gerações, lembrando a barbárie do período ditatorial. Então, com o amparo da memória, evitar-se-á a repetição dos erros do passado e prisões ilegais como a de Graciliano.