Os perigos das Fake News na era da informação

Enviada em 21/08/2020

Na década de 90 Gilberto Gil expressou seu otimismo com o incipiente e promissor mundo virtual através da música “Pela Internet”. Embora imbuído de futuro libertário advindo dos facilitados acesso e conexão entre as pessoas, o meio tem se mostrado falível no que tange à profusão da verdade. As fake news, neste sentido, são excelsos exemplares de um malogro relacionamento : informação irrestrita e internet não constituem amálgama.

O documentário Privacidade Hackeada explora a relação comercial entre a Cambridge Analytica (companhia de processamento de dados) e o Facebook (cujo alcance em contas ativas atinge mais de duas bilhões de pessoas). Assim, através da mineração de dados pela primeira sem conhecimento dos usuários do último, pôde-se direcionar propagandas políticas, as quais abalaram democracias. Afinal, o mundo digital não provou-se imparcial como muitos imaginavam. Ao contrário, dados transformaram-se no novo petróleo e, assim, gigantes da tecnologia como a empresa de Zuckerberg souberam explorar seu valor. Desta forma, por exemplo, o YouTube, através de seu algoritmo, recomenda aos internautas conteúdo cada vez mais extremado. Entretanto, tais negócios contrariam a lógica de um mundo cada vez mais informado, ancorando-se em fake news.

Neste sentido, coube aos anunciantes explorar a psicologia quando inserida no ambiente virtual. Assim, o conceito de “vida como teatro” do sociólogo Erving Goffman datando de 1956, permanece atual. Baseado nisto, as redes sociais teriam minado a vida privada pela prolífica geração de dados. Portanto, o consumo de notícias tornou-se uma performance, na qual os compartilhamentos são fruto da tentativa de expressar identidade. Antes de representar um mero fenômeno de mentiras, as fake news divulgadas pelos usuários teriam o papel de sinalizar aos demais que concorda-se com o sentido da mensagem, sendo tal digna de atenção. Outrossim, anunciantes geram mensagens com sentimentos como ódio e surpresa. As notícias falsas são, pois, extremamente dependentes da rede.

Em um espaço sem legislações concretas tal como as redes sociais, a profusão de vozes gera polarização e o expressar de opiniões tal como apresentado faz-se prejudicial. Em suma, caberá aos governantes aliados à sociedade civil e gigantes da internet elaborar leis que malogrem o incentivo às fake news através de amplos debates. Tais devem perpassar pelo banimento de contas disseminadoras do fenômeno e mormente pela limitação das grandes corporações em negociar publicidade. Afinal, a internet deve revigorar os anseios de Gil.