Os perigos das Fake News na era da informação

Enviada em 23/07/2021

Na complexa alegoria dramática, “Auto da Barca do Inferno”, Gil Vicente elabora uma feroz crítica ao comportamento problemático da humanidade. É possível visualizar a perspectiva vicentinda na idiossincrasia diante dos perigos das Fake News na era da informação, que dissemina a desinformação dos mais diversos conteúdos por vários canais de comunicação na web, uma conduta contestável que resulta, lamentavelmente, em uma sociedade vulnerável e sem senso crítico. Nesse sentido, torna-se impreterível atuar sobre o problema, que tem como causas a lacuna legislativa e a impunidade.

Sob esse viés, pode-se apontar como um agente determinante a lacuna legislativa. Segundo Umberto Eco, “para ser tolerado é preciso fixar os limites do intolerável”. No entanto, tais limites não estão fixados nos perigos das Fake News na era da informação, visto que na internet quase tudo é consentido, a desinformação é propagada desenfreadamente e pode gerar consequências inofensivas que vão desde cliques monetizados até atitudes mais severas como agressões psicológicas contra pessoas inocentes, ameaças a questões de saúde pública, como os movimentos antivacina, aumento da intolerância contra homossexuais, o discurso de ódio contra povos ou culturas diferentes e até mesmo a manutenção de sistemas governamentais totalitários. Assim, sem base legal, ações de remediações são impossibilitadas.

Além disso, a impunidade ainda é um grande impasse na resolução da problemática. O jornalista Carlos Lacerda afirmou que, “a impunidade gera a audácia dos maus”. Tal audácia revela-se de forma cruel nos perigos das Fake News, uma vez que, segundo um estudo realizado pela Avaaz, cerca de 110 milhões de indivíduos foram vítimas de pelo menos uma notícia falsa divulgada, principalmente, pelas redes sociais, um número que só cresce ano após ano e poucos são realmente responsabilizados por essa transgressão, é evidente a existência de um crime com milhões de vítimas, resultado da impunidade alarmante presente em crimes na rede. Dessa forma, é preciso reverter a impunidade para que a audácia dos maus deixe de ser gerada.

Portanto, nota-se um problema que carece de intervenção. Para isso, o Ministério da Justiça deve fazer um intensivo de julgamentos, por meio de plantões de juízes, a fim de reverter a impunidade dos perigos das Fake News. Tal ação pode, ainda, ser divulgada nas redes sociais juntamente com o disque-denúncias, para superar o cenário da injustiça. Paralelamente, é preciso intervir na lacuna legislativa presente no problema. Dessa maneira, a sociedade retratada por Gil Vicente poderá permanecer na ficção.