Ostentação: um valor do século XXI?

Enviada em 13/02/2021

A sociedade do hiperconsumismo, como descreve o filósofo Gilles Lipovetsky, baseia o conceito de felicidade à aquisição de bens. Contudo, na contemporaneidade, tal fenômeno tem causado dependência psicológica - em especial na juventude das camadas periféricas - que, indiretamente, é influenciada pela cultura do exibicionismo econômico e busca cada vez mais a aquisição de bens do que o aperfeiçoamento pessoal, devido a insaciabilidade dos consumidores e à inobservância estatal.

Em primeiro plano, um entrave é a valorização exacerbada, por parte da mídia, na associação de bens luxuosos à uma vivência teoricamente “perfeita”, como se a posse de bens apenas necessários para a vida fosse o sinônimo de infelicidade e, posteriormente, uma vida ínfima. Logo, tal ação se associa  ao conceito de hedonismo moderno proposto por Campbell, em que há o deslocamento da preocupação primordial das sensações para as emoções. Um exemplo disso é uma pesquisa conjunta do Serasa e o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), que encontraram mais de 60 milhões de brasileiros inadimplentes em 2018. Nesse quadro, o medo de aparentar possuir produtos menos desvalorizados e a forte publicidade se aliam para estruturar uma psicologia voltada para o status social e não para a necessidade do comprador.

Outro obstáculo enfrentado pela população inadvertida é um Estado omisso, uma vez que são inexistentes programas sociais que forneçam educação financeira - ministradas sobre os efeitos nocivos da ostentação que levam ao consumismo - além do levantamento da importância do investimento em conhecimento pessoal, visto que apenas o estudo pode fornecer ferramentas para um indíviduo crescer profissionalmente e manter o padrão de vida desejado por ele. De acordo com Habermas, incluir não é só trazer para perto, mas também crescer junto com o outro. A frase do filósofo demonstra que, enquanto o Estado não apenas fornecer medidas de créditos bancários, mas também, uma educação financeira, a sociedade continuará fortemente influenciada pela cultura da aquisição de bens.

Dessa forma, para que a ostentação não afete o psicológico do brasileiro e seu poder aquisitivo para com suas necessidades básicas, é preciso que o Ministério da Educação em parceira com psicólogos e economistas, promova cursos de educação financeira e psicológica, por meio de oficinas de especialização nas áreas periféricas à noite - horário livre para a maioria dos cidadãos - de modo a garantir que o corpo social possa aprender à utilizar o dinheiro de modo eficaz e produtivo, o que diminuirá o número de endividados no Brasil. Outrossim, o Estado deve aumentar o número de propagandas, pelo uso das mídias, sobre a importância do investimento finaceiro em estudos, a fim de se possuir uma sociedade mais forte no sentido educacional.