Ostentação: um valor do século XXI?
Enviada em 12/09/2021
Na telessérie “Chaves”, o diretor Roberto Bolaños apresenta o personagem Kiko, menino que exibe aos seus amigos os diversos brinquedos e roupas que possui, para convencê-los que ele tem uma vida melhor e com “ares de nobreza”. Nessa obra, Bolaños mostra como o exibicionismo é usado, desde a infância, como instrumento de distinção social. Não distante da ficção, a ostentação consolidou-se, no Brasil do século XXI, como valor necessário a muitos indivíduos, em virtude do seu poder de persuasão e discriminação coletiva. Logo, é válido analisar esse mal presente na vida privada e na vida política.
Em primeiro lugar, há o poder da ostentação nas relações comunitárias modernas. No seu livro “A distinção: crítica social do julgamento”, o sociólogo Pierre Bourdieu mostra como as pessoas utilizam-se das riquezas e da educação para afirmarem-se pertencentes a uma dada classe social. Utilizando o conceito capital cultural, Bourdieu demonstra que as sociedades atuais esbanjam conhecimento e bens para valorizarem-se e, assim, conquistarem a admiração alheia. No Brasil, por exemplo, a corrente artística Funk Ostentação tornou-se moda nas metrópoles, pregando o consumismo e o luxo como sinais de sucesso pessoal. Desse modo, constata-se que a ostensão não só está em voga, mas está, também, capitalizando as relações humanas, reduzindo-as a vaidades e narcisismo.
Além disso, há a instrumentalização da ostentação na prática política. Em seu livro “Sobre o autoritarismo brasileiro”, a antropóloga Lilia Schwarcz mostra como a autopromoção sociopolítica está ligada intimamente à dinâmica existencial do Estado, desde o século XVI. Dos títulos reais, na Monarquia, às “bancadas dos parentes”, no Congresso da República, pessoas influentes ostentam privilégios políticos para manterem-se no poder. Segundo estudo da Câmara dos Deputados, de 2014, muitas verbas públicas são utilizadas em troca de apoio do eleitor para que certas famílias estendam-se na vida pública. Por intermédio de desvios de verbas, compras públicas superfaturadas ou construções de escolas e praças, políticos ostentam suporte a empresários e à população, conquistando, então, mais poder político e corrompendo a máquina republicana, que deve servir a todos. Logo, infere-se que a ostensão está impregnada até nos governos pós-modernos.
Percebe-se, portanto, que, no Brasil, a ostentação configura-se como valor rentável nas relações privadas e públicas daqueles que veem na jactância a solução para a felicidade. Para desmoralizar essa conduta, é vital que as instituições de educação, como as escolas e as igrejas, questionem, por meio de análises sociais, a validade ou toxicidade da cultura de ostentação nas áreas da vida, ponderando o quão desvirtuosa pode ser uma ética baseada no alarde. Assim sendo, a ostentação perderá sua utilidade nas comunidades modernas e ter-se-á cidadãos que não iludem-se com aparências.