Ostentação: um valor do século XXI?
Enviada em 19/10/2021
O filósofo alemão Karl Marx, em seu livro “O Capital - I”, apresenta o “fetichismo da mercadoria”. Por meio desse conceito, ele explica que nas sociedades capitalistas as coisas aparecem como as verdadeiras detentoras de virtudes, em detrimento do indivíduo humano. Infelizmente, a sociedade brasileira contemporânea ainda enfrenta esse problema, haja vista que, não apenas, mas principalmente, os jovens das periferias das grandes cidades têm adotado a ostentação de determinados produtos como uma forma de expressão cultural e paradigma comportamental, sem levar em conta suas consequências. Destarte, além de agravar a exploração humana de recursos naturais para a confecção desses objetos, perde-se o valor da individualidade pessoal.
Em primeiro lugar, é oportuno salientar que nas sociedades atuais existe uma pressão para a conquista do sucesso e, sobretudo, da aceitação que, impulsionada pelas mídias tradicionais e digitais, fomenta a busca por moldes de agir. Sob essa ótica, tem-se, conforme explica o filósofo francês Guy Debord, uma “sociedade do espetáculo”, na qual todos são condicionados a performarem um show, uma vida invejável, como uma em que se tem acesso às roupas mais caras e famosas. Desse modo, cada vez menos importa a personalidade do indivíduo e, por isso, cresce preocupantemente o valor atribuído aos bens materiais, independentemente de suas implicações.
Por conseguinte, surge a necessidade social de um montante maior desses utensílios, o que exige um enlarguecimento da utilização da natureza, constituindo, portanto, uma outra dimensão do problema. Isso porque, conforme divulgou o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, da ONU, em 2021, as alterações do clima prejudiciais à vida na Terra estão diretamente relacionados com as ações humanas para a produção e extração de recursos naturais. Logo, a ostentação, uma forma de consumismo, intensifica um estado de fatos que põe em risco toda a vida no planeta. Essa situação, certamente, configura-se como desagregadora e não pode ser negligenciada.
Em suma, alternativas devem ser elucidadas para frear os efeitos negativos da cultura da ostentação, erguida sobre os valores da sociedade brasileira capitalista e fetichizada do século XXI. Assim sendo, cabe ao Congreso Nacional elaborar um projeto de lei por meio do qual as grandes empresas produtoras deste tipo de objetos ficarão obrigas a, além de veicular nas mídias campanhas conscientizadoras de valorização pessoal e autoaceitação, limitarem suas atividades a um nível que não contribua para a manutenção da degradação ambiental e das mudanças climáticas. Espera-se, com essas medidas, tirar o Brasil do “espetáculo” que termina em cidadãos objetificados e um mundo naturalmente inabitável.