Paradoxo da Tolerância: como lidar com discursos intolerantes na sociedade contemporânea?

Enviada em 02/04/2024

O filósofo Thomas More, na obra Utopia, apresenta uma sociedade perfeita, caracterizada pela ausência de mazelas sociais. No entanto, ao se analisar a conjuntura mundial, vê-se uma oposição à obra, já que a intolerância marca presença, de diversas maneiras, na sociedade contemporânea. Diante disso, urge debater os limites aceitáveis das liberdades individuais, assim como do impacto de cerceá-las na busca por uma sociedade harmoniosa.

No dicionário, a palavra tolerância é definida como “boa disposição dos que ouvem com paciência opiniões opostas às suas.” Nesse contexto, o Brasil carece de um sistema educacional que forme cidadão capazes de conviver em uma coletividade miscigenada e culturalmente diversa. Tal como defendido pelo sociólogo Zygmund Bauman na teoria acerca das Instituições Zumbis, a inoperância estatal indiretamente fomenta o empobrecimento de valores e, com isso, a dificuldade das relações com aqueles que se diferenciam do modelo de indivíduo historicamente construído, como sendo hétero, cisgênero, branco, culto e bem sucedido, rechaçando-os através de atos físicos ou verbais.

Apesar da Constituição Federal garantir a liberdade de expressão como um direito de todo cidadão, muitos têm-se questionado se coibir as manifestações dos intolerantes não seria contrário às premissas desse documento. Contrariando tal pensando, o filósofo britânico Karl Popper defende a importância da sociedade estabeler os seus limites e usar ferramentas punitivas, se necessário, para refrear os excessos. A ausência de tais posicionamentos na sociedade brasileira repercute nas recorrentes manifestações racistas, neonazistas e religiosas, por exemplo, reforçando a necessidade do posicionamento coletivo.

Portanto, são necessárias medidas diante da falta de seriedade que essa temática tem sido tratada. Para isso, o Ministério da Educação, órgão promotor da cidadania, deve, por meio de um grupo composto por educadores e cientistas sociais, elencar políticas e práticas afirmativas desde a tenra infância, com atividades lúdicas nas creches, até o debate nas escolas e faculdades sobre a importância de se acolher e respeitar as diferenças que marcam a vida coletiva. Com isso, espera-se se aproximar da sociedade descrita por More.