Perigos da obsolescência programada

Enviada em 16/08/2020

“Nada é orgânico. É tudo programado”. O trecho da música “Admirável chip novo”, da cantora Pitty, se relaciona com um dos maiores problemas da sociedade contemporânea: a obsolescência programada. Tal fenômeno hodierno se perpetua desde a modalidade de produção Toyotismo, em meados do século XX, visto que, nesse contexto, os carros eram produzidos com uma durabilidade pré-estabelecida, a fim de dar lucro à empresa. Dito isto, cabe analisar os perigos sociais e ambientais dessa problemática para, por fim,  para combatê-los.

Em primeira instância, é válido ressaltar que a redução do tempo útil dos produtos fomenta o consumo excessivo. Nesse viés, o filósofo contemporâneo Zygmunt Bauman, na obra “Vida para consumo”, explora uma idiossincrasia atual: o consumismo. Tal linha de pensamento, de fato, se relaciona com a atualidade, uma vez a obsolescência programada acarreta a constante substituição dos produtos por outros novos, promovendo, assim, a compra demasiada. Desse modo, é necessário que os clientes tenham ciência total do tempo médio de funcionalidade dos produtos, cabendo às empresas esse papel.

Além disso, a diminuição da vida útil dos eletroeletrônicos gera o excesso de resíduos ao meio ambiente. Nesse panorama, na mitologia grega, o rei Midas pede ao deus Dionísio que, ao tocar em qualquer material, este se transforme em ouro. Essa fome insaciável por riqueza acabou causou a destruição por completo do meio natural. Fora da ficção, é notório que as grandes corporações, visando apenas o acúmulo de capital, reduzem a obsolescência dos produtos, comprometendo o meio ambiente a partir do aumento de dejetos, infringindo, dessa forma, o artigo 225 da Carta Mana de 1988. É de suma necessidade, então, a utilização da logística reversa para reciclar esses resíduos e não permitir o mesmo desfecho do mito.

Não restam dúvidas, portanto, que a obsolescência programada possui imensuráveis perigos. Logo, urge que a propriedade privada informe o consumidor da durabilidade dos produtos, por meio de dados presentes nas embalagens, de forma bastante clara, com o objetivo de garantir uma plena ciência a respeito do tempo de vida dos objetos. Complementarmente, as empresas devem reciclar os resíduos gerados após o consumo, por meio da logística reversa, de modo que os clientes devolvam os materiais para os devidos locais de compra e, em seguida, sejam destinados novamente para a empresa, com a finalidade de diminuir o lixo e suas consequências danosas ao meio ambiente. Como efeito, o quadro atual não terá o mesmo trágico fim da mitologia de Midas e Dionísio, tendo em vista a efetivação dos direitos constitucionais e a redução da “realidade programada”, como descrito por Pitty.