Perigos da obsolescência programada

Enviada em 23/08/2020

“Um artigo que não estraga é uma tragédia para os negócios”, já dizia uma revista publicitária americana após a grande depressão de 1929. Com efeito, a ideia de reduzir o tempo de vida útil dos produtos ao passo que estimula as vendas, acarreta também em vários danos. Nesse sentido, tal prática traduz um problema atual ao induzir ao consumo desenfreado e o descarte inadequado de lixo, com graves repercussões socioambientais.

Em primeiro lugar, vale salientar que a obsolescência programada se moldou perfeitamente às leis capitalistas para as quais a durabilidade dos produtos não interessa. Sob essa ótica, os celulares, impressoras e notebooks, por exemplo, ficam obsoletos em poucos meses, obrigando ao consumidor a novos aportes, influenciados de forma veemente pela propaganda midiática. Dessa maneira, há a alimentação de um círculo de consumo e descarte insustentáveis, pautados no “fetiche da mercadoria”, conforme Marx e que necessita de forma urgente ser debatido em sociedade.

Por outro lado, o meio ambiente sofre com o descarte irrefreado dos produtos “programados para estragar”. Nessa perspectiva, reportagem do jornal El País, de 2018, afirma que 90% do lixo eletrônico do mundo é despejado no continente africano, resultando em contaminação humana e ambiental. Percebe-se, pois, um paradoxo impensável, pois tampouco a estrutura dos países ricos abarca o descarte da produção desses. Logo, há de se rever esse círculo prejudicial agregando valor a um tipo de consumo responsável.

É fundamental, portanto, para a resolução dessa problemática que haja o incentivo à criação de start-ups, pelo Ministério da Ciência e Tecnologia junto a iniciativa privada, para desenvolvimento de aplicativos de descarte consciente. Dessa forma, haveria a distribuição de créditos, voltados à população em geral, para cada artigo que pudesse ser reciclado em cooperativas, de forma a promover uma cultura consumo e reciclagem conscientes. E assim, trazer à tona uma ideia que não seja uma tragédia para os negócios, mas sim uma alternativa viável e sustentável tanto econômico quanto ecologicamente.