Perigos da obsolescência programada
Enviada em 13/10/2020
O documentário “A história das coisas”, da estadunidense Annie Leonard, promove uma reflexão sobre o processo de fabricação, monetização, consumo e destino final das mercadorias, destacando o conceito de obsolescência programada como a criação de produtos com vida útil reduzida, de modo a estimular sua troca com maior frequência. Tal prática é, infelizmente, recorrente na sociedade atual, o que implica no aumento do consumismo entre a população, uma vez que a pouca durabilidade dos produtos exige a compra de novos em menos tempo. Ademais, há um acentuado prejuízo ambiental, consequente do aumento dos resíduos sólidos derivados dos materiais obsoletos.
Em primeiro lugar, destaca-se o aumento do consumismo na sociedade moderna como consequência da obsolescência programada. O livro “Admirável mundo novo”, escrito por Aldous Huxley, retrata um mundo distópico, organizado a partir da criação do modelo T da indústria automobilística Ford. Nessa sociedade, todas as atividades sociais, espaços de lazer e instituições de trabalho são programados a fim de estimular o uso de automóveis. Nessa conjuntura, a prática da obsolescência programada tem a mesma finalidade: ao promover o descarte rápido dos produtos, por diminuir propositalmente sua vida útil, estimula-se a compra de novos modelos, o que aumenta substancialmente o consumismo. Logo, reforça-se o materialismo e a necessidade de consumo, o que torna os indivíduos cada vez mais reféns do mundo capitalista, assim como na citada realidade ficcional criada por Huxley.
Ademais, a prática da obsolescência programada traz inúmeros prejuízos ambientais. Com a limitação do funcionamento de aparelhos e produtos, em pouco tempo eles se tornam obsoletos, sendo descartados como resíduos sólidos. Tal processo aumenta, portanto, a produção de lixo, algo que implica em problemas ambientais como aquecimento global, contaminação dos solos e da água, proliferação de doenças, entre outros - intensificados caso o descarte seja inadequado. Entretanto, há pouca mobilização da população frente a esses problemas, em função do chamado “fetichismo de mercadoria”: conceito do sociólogo Karl Marx, que define a sociedade consumista como despreocupada com o processo de criação e descarte dos produtos, priorizando apenas sua experiência de consumo.
Portanto, medidas são necessárias para resolver o impasse. O Sistema Nacional de Defesa do Consumidor pode, por meio de propostas de lei entregues à Câmara dos Deputados, aumentar a fiscalização das mercadorias no Brasil, a fim de proibir o abuso da obsolescência programada e promover o respeito ao Código de Defesa do Consumidor. Ademais, o Ministério do Meio Ambiente pode, com projetos divulgados na mídia, estimular o descarte correto dos resíduos desses materiais, a fim de diminuir os impactos ambientais do consumo excessivo e frear os perigos dessa problemática.