Perigos da obsolescência programada

Enviada em 14/10/2020

O sociólogo contemporâneo Zygmunt Bauman defendeu a ideia de que os tempos atuais são marcados por vínculos frágeis e passageiros, os quais não são feitos para serem duráveis. Da mesma forma, observando-se as relações econômicas, vê-se que a conservação dos produtos no mundo globalizado torna-se, propositadamente, a menor possível, o que caracteriza a política de “obsolescência programada”. Nesse âmbito, nota-se que a perpetuação desse cenário nefasto, o qual é incentivado por grupos sociais que se privilegiam de tal situação, provoca a marginalização de coletivos mais carentes que não conseguem comprar produtos constantemente atualizados.

Em primeira análise, é importante destacar que o interesse aos lucros, por parte de uma classe econômica, gera a desvalorização de antigos artefatos. Nesse sentido, Karl Marx defendeu que o sistema capitalista, ao promover a massificação dos produtos, provoca o aumento substancial das desigualdades econômicas, uma vez que, como a preocupação exclusiva de grandes proprietários está relacionada ao aumento da receita, há a subvalorização das mercadorias pertencentes às classes mais baixas. Portanto, torna-se evidente que a reprodução e a curta validade dos produtos no sistema de mercado são ocasionados por uma lógica individualista de grupos que se favorecem, de forma exclusiva, desse cenário.

Por conseguinte, observa-se a exclusão social de camadas de menor renda. A esse respeito, o filósofo John Rawls argumentou que, a fim de garantir a prática de justiça coletiva, é necessário que haja a igualdade de oportunidades entre os cidadãos, pois privilégios socialmente impostos a determinadas camadas representam empecilhos à democracia. Sob esse viés, percebe-se que a pequena durabilidade dos produtos na modernidade apresenta-se como um entrave ao princípio de isonomia, uma vez que os benefícios da renovação contínua dos produtos restringem-se às camadas econômicas mais altas da sociedade, o que negligencia a defesa da equidade social e que contribui negativamente com a supressão de determinados coletivos.

Em suma, deve-se solucionar os problemas causadores da obsolescência programada. Cabe, assim, ao Ministério da Educação, em parceria com o Legislativo, por intermédio da aprovação de um projeto de lei, incentivar as escolas de rede pública à ocorrência anual de palestras acerca dos direitos do consumidor. Tais aulas serão ministradas por docentes de direito, os quais deverão explicitar sobre a pequena validade dos produtos na contemporaneidade e sobre a importância da vigilância às empresas que realizam essa atividade. Com isso, espera-se construir uma sociedade marcada por mercadorias mais duráveis, bem como garantir que a democracia defendida por John Rawls seja consolidada.