Perigos da obsolescência programada
Enviada em 19/08/2024
Conforme o filósofo Zygmunt Bauman, a sociedade atual está imersa na “moder-nidade líquida”, em que nada é feito para durar. Em consonância com essa visão, nos últimos anos, tem-se discutido amplamente a volatilidade dos bens de consu-mo, amplificada pela lógica da obsolescência programada. Portanto, é pertinente analisar os potenciais riscos decorrentes da depreciação desses bens, consideran-do tanto o acúmulo de resíduos sólidos quanto os revés ético envolvido.
É mister destacar, a princípio, que a constante desatualização dos produtos co- merciais leva ao aumento do descarte de resíduos sólidos. Isso ocorre porque a ob-solescência programada resulta na produção de itens com vida útil limitada. Con-sequentemente, os consumidores são forçados a adquirir novos bens em curto prazo, descartando os antigos. Nesse sentido, a estratégia, quando aplicada em eletrônicos, pode corroborar para o desequilíbrio da saúde humana, uma vez que, conforme pesquisas da Universidade de São Paulo, o chumbo presente em bate-rias, quando descartado, contamina o lençol freático que abastece as cidades.
Outrossim, é crucial destacar que a obsolescência programada é uma prática desonesta que explora os consumidores. Isso se deve ao fato de que ao invés de oferecerem produtos que deveriam durar mais tempo, as marcas produzem itens para falhar após um período específico. Nesse contexto, a confiança entre a em- presa e o cliente torna-se frágil e pode ser considerada uma relação de exploração, haja vista que ele é forçado a gastar mais para substituir itens que deveriam ter vi-da útil maior. Sob essa perspectiva, o sociólogo Karl Marx alerta para a exploração capitalista, onde a confiança é relegada e o lucro está em primeiro lugar.
Diante do exposto acerca dos impactos negativos da obsolescência programada, urge que medidas sejam ser tomadas. Logo, o Estado, responsável pelo bem-estar social, deve criar um programa estratégico nacional, com realocação de 2% do Pro-duto Interno Bruto para campanhas de contenção ao consumo desenfreado, que devem ser realizadas em canais televisivos abertos e outdoors. Além disso, tam-bém é necessário que o governo implemente incentivos fiscais para os fabricantes que se comprometerem a aumentar a durabilidade dos bens de consumo produ-zidos no Brasil. Dessa forma, será possível atenuar a volatilidade da modernidade.