Permanência de deslizamento de terra nas cidades brasileiras

Enviada em 29/07/2025

A persistência de deslizamentos de terra nas cidades brasileiras é uma crônica de tragédias anunciadas, que expõe a negligência estatal e a face mais cruel da desigualdade. Longe de serem acasos naturais, esses eventos, como aponta o geógrafo Milton Santos, revelam um “espaço geográfico seletivo”, onde o risco tem endereço e classe social. A ocupação desordenada de encostas por uma população sem alternativas de moradia, somada à omissão do poder público, cria zonas de sacrifício anunciadas.

A causa fundamental do problema é a urbanização acelerada e excludente. A falta de planejamento e de políticas habitacionais eficazes empurra os mais pobres para áreas geologicamente instáveis. A supressão da mata ciliar e a construção de moradias precárias, sem infraestrutura de saneamento, tornam o solo vulnerável. Conforme dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), milhões de brasileiros vivem em áreas de risco. As chuvas intensas, portanto, atuam apenas como gatilho para uma bomba-relógio social e ambiental armada pela inércia governamental.

As consequências transcendem a perda de vidas, representando uma fratura no tecido social e urbano. Famílias perdem seus lares e bens, aprofundando sua vulnerabilidade, enquanto o meio ambiente sofre com o assoreamento de rios e a destruição de ecossistemas. Essa realidade evidencia um Estado que, em muitas instâncias, falha em garantir o direito fundamental à moradia segura, previsto na Constituição.

Para romper com este ciclo, é imprescindível a ação enérgica do Estado. Urge que o Governo, em suas esferas federal, estadual e municipal, implemente, por meio de investimentos diretos e fiscalização, um robusto plano de prevenção que inclua a construção de moradias populares em locais seguros e a urbanização de favelas. Além disso, é vital fortalecer o monitoramento do Cemaden, com sistemas de alerta eficazes e planos de evacuação para as comunidades. Somente com planejamento urbano, justiça social e vontade política será possível evitar que a terra continue a soterrar o futuro de tantos brasileiros.