Permanência do "pão e circo" no Brasil

Enviada em 15/03/2024

O termo “panem et circenses” foi idealizado pelo autor romano Juvenal, que costumava criticar a oferta de alimentos e recreação para desviar os plebeus dos problemas sociais vigentes. Essa prática, longe de ser uma realidade exclusiva da Roma Antiga, ainda vigora no Brasil contemporâneo, principalmente sob a ótica do entretenimento que distrai a população das questões coletivas prioritárias.

Um clássico exemplo de diversão que aliena é o Carnaval, festa que conta com grande apoio popular, mas que prioriza aqueles que podem pagar para participar. Além disso, anualmente, a folia carnavalesca é mantida às custas de altas somas de dinheiro público. É nessa perspectiva que Suzanne Collins, autora da saga “Jogos Vorazes”, critica o lazer das elites às custas do sofrimento das massas. Paralelamente, os investimentos do governo em questões secundárias, como o Carnaval, acabam por gerar um sucateamento dos serviços básicos de saúde, educação e segurança, o que afeta, de maneira majoritária, as camadas mais vulneráveis da população.

Somado a isso, um outro caso típico dessa realidade pode ser observado no futebol. Apesar de ser considerado um símbolo cultural brasileiro, a superpromoção do esporte leva o brasileiro a desviar-se das prioridades sociais. Foi nesse contexto que, entre 2012 e 2014, o governo construiu imensos estádios em detrimento de hospitais e unidades básicas de saúde. O reflexo desse descaso pôde ser observado durante a recente pandemia, na qual a falta de estrutura para receber o alto contingente de pacientes gerou o colapso do sistema de saúde e o catastrófico número de óbitos em 2021.

Dessa forma, fica evidente a necessidade de reverter esse quadro de inversão de valores sociais. Com essa finalidade, é dever das escolas e universidades – locais de formação do pensamento crítico – a criação de espaços que estimulem a reflexão dos alunos a respeito das prioridades em uma sociedade democrática e sobre o seu papel como agentes transformadores da realidade. Tal ação pode ser realizada através de atividades lúdicas como o teatro ou formativas como rodas de conversa. Somente assim, através da educação, é possível contribuir para a extinção dessa política perversa e alienadora.