Perspectivas e desafios da educação a distância no Brasil
Enviada em 22/06/2020
Segundo Pierre Lévi, filósofo francês, a rede de computadores possibilita a virtualização - passagem para o mundo virtual - dos fenômenos físicos e sociais, inclusive dos processos educativos. É, nesse contexto de mudança cultural, que observam-se as perspectivas da educação a distância (EaD) no Brasil, a qual, embora promova a democratização do ensino, enfrenta sérios desafios na garantia de seu acesso populacional, especialmente para as pessoas com deficiência. Tais dificuldades refletem o despreparo público e privado com essa nova realidade, o que dificulta seu pleno desenvolvimento e deve, portanto, ser superado.
Diante disso, é indubitável que a escassez de políticas públicas que promovam a inclusão digital e o acesso às tecnologias, no Brasil, estejam entre as causas dessas problemáticas. De acordo com Bourdieu, sociólogo francês, a concentração das ferramentas culturais nas classes dominantes compromete o desenvolvimento cognitivo da sociedade. Seguindo essa linha de pensamento, o acesso deficitário da população brasileira às novas tecnologias - 25% dos brasileiros não têm acesso à internet e apenas 43% dos domicílios possuem computadores, segundo a Pnad 2017 - dificulta a disseminação do ensino a distância no país, uma vez que, restringe os insumos para sua realização. Como consequência tem-se a manutenção dos baixos índices de escolaridade nacionais com a privação de um ensino potencialmente mais democratizador e flexível.
Outrossim, essa quadro é agravado pelo despreparo das instituições educacionais na garantia de acessibilidade dessa nova modalidade formativa. De acordo com o Censo EaD 2016, a minoria - cerca de 20% - das instituições de ensino a distância possuem serviço de intérprete de Libras e disponibilizam materiais em Braile. Esse descaso na oferta dos aparatos inclusivos, a exemplo de vídeos com descrição em áudio e com legenda, contribui para a ampliação do alijamento educação das pessoas com deficiência nessa era de virtualização apontada por Lévi.
Diante disso, urge que o Estado brasileiro tome medidas diligentes que mitiguem os desafios da educação a distância no país. Destarte, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação deve ampliar os subsídios para a compra de equipamentos tecnológicos, como os microcomputadores, e de pacotes de banda larga de internet para a população carente, por meio de uma política nacional de inclusão digital e de parcerias público-privadas, a fim de garantir o acesso a essa educação democratizante e flexível. Por fim, o Ministério da Educação deve instaurar um percentual mínimo de aulas inclusivas nas instituições de EaD, para garantir o desenvolvimento cognitivo de toda a sociedade, tal como propôs Bourdieu.