Perspectivas e desafios da educação a distância no Brasil

Enviada em 20/07/2020

O filósofo e cientista Paulo Freire, em uma de suas Cartas Pedagógicas, escreveu que o ato de ensinar vai além de transferir conhecimento, é criar possibilidades para a sua construção e a de seus envolvidos. Para Freire, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela certamente o entorno não muda. A partir dessa consideração, é possível discutir-se sobre o ensino à distância. Tal questão será sanada se fatores como a falta de investimentos públicos no ensino à distância e a desigualdade social forem tratados como prioritários.

Em uma primeira análise, é relevante abordar que cerca de 1,5 milhão de brasileiros optam pelo ensino a distância (EAD), de acordo com a revista Veja. Essa realidade se dá em razão de dois fatores principais: flexibilidade e custo. Por certo, o ensino à distância é adotado como solução normalmente  por aqueles que preferem evitar grandes descolamentos e pelos que escolhem seu próprio horário de estudo, muitas vezes devido a tais alunos estarem inseridos no mercado de trabalho. Entre os fatores  que mais influenciam, o custo da mensalidade pode ser até 65% mais baratas do que as presenciais, na qual o principal meio de estudo – internet - utilizada também não demanda muitos custos.

É preciso, porém, reconhecer que, apesar da aula EAD trabalhar da maneira mais inclusiva possível, a parcela socialmente vulnerável ainda se encontra fora dessa realidade, visto que apenas cerca de 49% da população brasileira possuem acesso à internet, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outrossim, é imperativo pontuar que a ausência de políticas públicas suficientemente efetivas nas instituições de ensino público dificulta a inserção dos jovens no ensino à distância, uma vez que mais de 85% dos estudantes EAD são de instituições particulares, de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Paralelo a isso, torna-se inegável que apenas as classes privilegiadas possuem os meios necessários para tal inclusão.

É necessário, portanto, que medidas sejam tomadas para facilitar a adaptação da população aos novos meios de ensino. Posto isso, o Ministério da Economia e o Ministério da Educação devem, por meio de um amplo debate entre Estado, sociedade civil, instituições públicas e profissionais da área, lançar um Plano Nacional de Ensino à Distância. Esse por sua vez terá como desígnio o corte dos altos impostos referentes aos aparelhos eletrônicos e a introdução de cursos de informática nas instituições públicas, a fim de fazer com que o maior número possível de brasileiros possa ter acesso à internet e, por conseguinte, ensino à distância. Somente dessa maneira a sociedade brasileira poderá criar possibilidades para a sua construção e a de seus envolvidos, assim como Freire intentava.