Perspectivas e desafios da educação a distância no Brasil
Enviada em 13/07/2020
Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago sinaliza, metaforicamente, uma crítica ao individualismo através de um processo epidemiológico de cegueira que atinge toda uma comunidade. No Brasil, por exemplo, essa incapacidade coletiva de enxergar é vista na indiferença do Estado e de parte da população frente à desvalorização da educação a distância (EAD). Diante do exposto, cabe analisar os aspectos políticos e sociais que circundam essa questão no país.
Antes de tudo, pontua-se que o Poder Público tem se mostrado negligente ao permitir a desvalorização da EAD. Como prova disso, vê-se a omissão das instituições governamentais ao não promoverem a efetivação do ordenamento jurídico que prevê a fiscalização da qualidade dos cursos oferecidos a distância no país, o que prejudica a formação dos estudantes dessa modalidade de ensino e, consequentemente, o direito à educação desses. Desse modo, certifica-se que o bem-estar de toda a coletividade não tem sido assegurado, demonstrando a ruptura dos princípios presentes na Constituição Federal de 1988.
Ademais, observa-se que parcela da sociedade tem aceitado a má qualidade da internet, o que denota uma banalização do mal. Confirma-se isso pela apatia de alguns indivíduos perante a ausência de um maior investimento estatal que possibilite a melhoria da infraestrutura que distribui a rede de computadores no território nacional, o que pode comprometer a procura pela educação a distância, bem como, o acesso ao ensino superior dos cidadãos. A naturalização desse fato corrobora os estudos de Hannah Arendt, pois, segundo a filósofa, o enfraquecimento da capacidade humana de discernir o certo do errado é resultado de um processo de massificação social.
Evidencia-se, portanto, que a desvalorização da educação a distância deve ser combatida. Para isso, é necessário que o Ministério Público solicite ao Poder Judiciário a segura implementação das leis existentes, visto que é crucial garantir a qualidade dos cursos oferecidos na modalidade EAD, de modo a não prejudicar a qualificação dos estudantes e a violação dos direitos constitucionais. Ainda, é fundamental que Organizações Não Governamentais, através de veículos midiáticos, promovam campanhas de conscientização que visem estimular a mobilização coletiva para que se exija do Estado o maior direcionamento de verbas para viabilizar melhorias nos serviços de telecomunicação, objetivando expandir a EAD para a população. Sendo assim, seria possível restringir a negligência social à obra de José Saramago.