Perspectivas e desafios da educação a distância no Brasil

Enviada em 26/08/2020

Segundo o pedagogo Paulo Freire, a educação é uma ferramenta de transformação social que deve promover a diminuição das desigualdades. Nesse contexto, mudanças na modalidade do processo educativo — como a implementação do ensino a distância — devem assegurar a manutenção do seu caráter cidadão. Dessa forma, é imprescindível analisar os impasses à aplicação do EaD de maneira adequada e às perspectivas de democratização da educação por meio do novo modal.

Em primeira análise, a introdução da modalidade de ensino a distância requer adaptações em relação ao modo presencial, nos seus projetos didático e pedagógico, visto que são aplicados em contextos diferentes. Apesar disso, o aumento da demanda pelo modal virtual pressiona as instituições de ensino a aderirem tal versão sem que antes houvesse capacitação da equipe docente para esse meio. Haja vista que, segundo a Associação Brasileira de Ensino a Distância, cerca de 7 milhões de pessoas estão matriculadas em algum curso EaD e a tendência é de aumento desse número. Assim, a aplicação de maneira inadequada é um obstáculo relevante que leva a precarização do processo educativo, pois desgasta ambos aluno e professor.

Outrossim, o avanço da tecnologia é um instrumento de extrema importância para a educação, visto que torna possível que o conhecimento esteja disponível para todos que possuem meios para conexão e, assim, contribui para a democratização do ensino. Contudo, a porcentagem total de alunos que realmente possuem os mecanismos para o acesso é muito baixa e se torna ainda menor no recorte de estudantes das escolas públicas, que chega a 34%, segundo o TICEducação. Nesse sentido, as classes marginalizadas serão desfavorecidas em uma realidade de EaD, pois será promovido o aprofundamento da desigualdade de acesso à alternativa virtual e, consequentemente, aumento das disparidades sociais e econômicas.

Depreende-se, portanto, que a implementação inadequada do ensino a distância e a desigualdade de acesso a este podem causar a precarização desse formato de educação. Sendo assim, se faz necessária a intervenção do Ministério da Educação para tornar os aparelhos digitais acessíveis à população. Isso seria realizado por meio de um programa nacional que previsse a distribuição de “notebooks” aos estudantes. Esses computadores seriam utilizados durante um período de 3 anos e devolvidos ao sistema, como ocorre com os livros didáticos. Além disso, os governos estaduais deveriam promover semanas de seminários obrigatórias para a capacitação dos professores que iniciarão aulas a distância. Dessa maneira, seria construído um projeto de educação transformadora e democrática, como almejava Freire.