Perspectivas e desafios da educação a distância no Brasil
Enviada em 28/09/2020
O filósofo alemão Karl Marx, em sua teoria materialista, afirma que a estrutura material de uma sociedade determina a forma com que os indivíduos se posicionam no meio social. De maneira análoga, a falta de infraestrutura mínima, no que tange à questão do ensino a distância, caracteriza-se como fator limitante para o desenvolvimento intelectual e social de milhões de estudantes no Brasil. Com isso, ocorre no País um agravamento das desigualdades sociais, visto que essas só podem ser superadas por meio da educação pública de qualidade, que, no atual momento, encontra-se ameaçada e em enorme desvantagem com relação à educação no setor privado. Nesse sentido, uma pesquisa realizada nesse ano pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC) estimou que 30% dos lares brasileiros não possuem acesso à internet, o que afeta negativamente a aprendizagem de muitos jovens no País, uma vez que, com a eclosão da pandemia da Covid-19, os ambientes virtuais se tornaram a principal alternativa para a educação, não só básica, mas também superior. Com isso, percebe-se que a base material, ou seja, a condição econômica, é um fator determinante para o desenvolvimento acadêmico dos estudantes, o que é muito preocupante quando o país em questão é o Brasil, que, de acordo com o Índice de Gini – usado para medir a medir a desigualdade social de um país – é o 18º território mais desigual do mundo. Posto isso, faz-se necessário ressaltar que, apesar de o método EAD ser uma opção viável em tempos de crise, é preciso pensar em meios para que tal prática não aprofunde ainda mais as desigualdades presentes no País. Nesse sentido, o filósofo alemão Jürgen Habermas propõe em sua “Teoria da Ação Comunicativa” uma alternativa para a superação da “razão instrumental” – que utiliza da técnica para aprofundar as disparidades sociais –, e criva o conceito de “racionalidade comunicativa”, a qual visa o uso das tecnologias de modo reflexivo e valoriza a solidariedade e identidade social. Analogamente, o uso dos meios digitais na educação deve visar a promoção de igualdade e emancipação dos alunos, e, por conseguinte, evitar a exclusão. À vista disso, o sucesso do ensino a distância no nível básico encontra como desafio principal a chamada “desigualdade digital”, que, conforme já expresso, muito se relaciona com a desigualdade social. Por conseguinte, mostra-se necessário que os agentes do poder executivo, em consonância com o legislativo, criem políticas públicas que visem atenuar as disparidades de acesso às tecnologias, o que pode ser feito por meio a criação de redes de internet comuns e da disponibilização de aparelhos eletrônicos para estudantes de baixa renda. Dessa forma, mesmo em momentos caóticos, como o atual, as aulas poderão ser mantidas virtualmente e com condições de acesso minimamente iguais, o que tornará possível uma educação melhor e mais democrática, independente do contexto em que o país se encontrar.