Perspectivas e desafios do ENEM Digital

Enviada em 20/05/2020

A máquina de escrever foi patenteada durante a primeira revolução industrial. Essa ferramenta foi largamente utilizada até ser substituída pelo computador no final do século XX. Contudo, a escrita à mão que perdeu espaço desde a primeira invenção, manteve-se útil em situações específicas, dentre as quais: exames escolares e processos de seletivos. Nesse contexto, como forma inovadora, o governo brasileiro propõe a aplicação do ENEM Digital para o acesso às Universidades. Diante disso, cabe análise das perspectivas, desafios e possível viabilização.

Em primeiro lugar, é importante evidenciar que a evolução tecnológica torna obsoleto aquilo que substitui. Entretanto, a utilização da caneta para registro no papel resistiu ao apogeu e declínio da máquina de datilografia. Porém, se depender do Ministério da Educação (MEC) o ENEM abandonará aquele pioneiro instrumento de escrita em 2026. Como teste, ele disponibilizou 101.000 provas digitais para 2020. Segundo o próprio Ministério, em três dias de inscrição, nessa modalidade, foram preenchidas quase todas as vagas. No que pese o aparente otimismo, é um erro acreditar que esse percentual seja representativo, pois, é insignificante para um país com realidades tão díspares.

Em segundo lugar, há de se ressaltar os obstáculos na implementação de um modelo digital em um exame tem como premissas: a inclusão e acessibilidade a todos. Nesse caso, segundo a pesquisa TCI Domicílios, em 2018 apenas 48% da população de baixa renda utilizava a internet e tinha acesso, geralmente, por meio do telefone celular. Diferente disso, nas classes de alta renda o percentual apresentado foi superior a 90%, além de incluir o computador como outra opção de interação. Assim sendo, percebe-se a enorme desigualdade nessas condições. Por conta disso, uma parte estará inapta a interagir com o ambiente digital. Desse modo, o fosso social histórico que separa pobres e ricos tenderá a aumentar acentuadamente.

Infere-se, à vista disso, que a proposta do novo sistema de avaliação não atende a todos. Logo, necessário se faz manter as duas modalidades de provas até a equalização do problema. Para mudar isso, o MEC deverá equipar os laboratórios das escolas com computadores, adquiridos por meio de licitação com recurso do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), e disponibilizá-los para estudo dos alunos no horário oposto ao das aulas. Com isso, eles poderão estudar e participar de simulações de provas até dominarem esse recurso. Espera-se, dessa maneira, dar igualdade de condições para todos. Destarte, superado esse desafio, será possível substituir a caneta preta e o gabarito pelo clique do “mouse” nas provas de todos os candidatos sem qualquer prejuízo.