Perspectivas e desafios do ENEM Digital

Enviada em 23/05/2020

A Quarta Revolução Industrial, característica do século XXI, é marcada pela presença da tecnologia em várias esferas da vida, como na saúde, no lazer e na educação. Nesse contexto, a principal prova para acesso às Universidades do Brasil, o ENEM, está implementando a aplicação digital do exame para otimizar o processo e cortar gastos. No entanto, tal mudança expõe desafios como a segurança da prova no ambiente cibernético e a desigualdade existente no país, o que demanda extremo planejamento e responsabilidade dos agentes públicos na questão.

A princípio, é importante destacar que a migração do ENEM para o âmbito digital inclui o risco de invasões de hackers ao sistema. Nesse sentido, convém citar o “WikiLeaks”, site criado pelo programador Julian Assange, no qual documentos confidenciais do governo americano foram vazados. Analogamente, partindo do pressuposto de que até os Estados Unidos foram vítimas de invasões de dados, sendo eles uma das nações que mais investem em segurança da informação, o ENEM precisaria de um sistema extremamente sólido para impedir ações desse tipo. Logo, os agentes públicos envolvidos nessa mudança devem se ater à essa preocupação e investir em tecnologias que coíbam a atuação de hackers.

Somado a isso, a desigualdade no Brasil pode agravar a assimetria no que tange ao acesso ao ensino superior. Sob essa perspectiva, sabe-se que parte fundamental da preparação do vestibulando consiste em simular a prova e o ambiente de sua aplicação. Entretanto, muitas pessoas não possuem computador em casa, o que já caracteriza uma considerável desvantagem, além de contrariar o caráter democrático do exame. Com efeito, a filósofa Marilena Chauí aponta que só existe democracia onde há liberdade, participação e igualdade de todos em qualquer esfera social, o que não é observado nesse caso. Infere-se, pois, que a importância dessa prova para milhões de brasileiros exige planejamento e extrema seriedade, visto que não se trata apenas de reduzir custos, mas do futuro dos jovens do país.

Fica claro, portanto, que existem desafios relacionados ao ENEM Digital e que as perspectivas dessa mudança envolvem posturas estatais. Por essa razão, o Ministério da Educação deve implementar parcerias com grandes empresas de segurança de dados, mediante contratos sigilosos, nos quais haja desenvolvimento de tecnologias que blindem a ação de hackers, a fim de evitar o vazamento de provas. Ademais, cabe ao mesmo Ministério promover melhorias estruturais nas escolas, por meio de compra de computadores, para que sejam feitos simulados digitais mensais, com vistas a suprir a necessidade de preparação daqueles que não possuem computadores em casa. Assim, a Quarta Revolução Industrial abrangerá também o ENEM de forma justa, responsável e democrática.