Perspectivas e desafios do ENEM Digital

Enviada em 11/07/2020

Ajustes necessários

O atual modelo do Enem, aplicado desde 2009, consiste na principal forma de acesso do estudante brasileiro ao ensino superior. Em 2020, a avaliação trouxe uma nova proposta: o Enem digital, que deverá ser gradativamente implementado até 2026, quando será extinto o formato impresso do exame. Mas como garantir isonomia de condições e segurança de dados na aplicação de uma prova digital em um país tão desigual e de dimensões continentais, como o Brasil?

Primeiramente, cabe ressaltar que grande parte das famílias brasileiras não tem acesso à internet nem possui computador em casa. Essa triste realidade se deve à construção do país, que se deu em função da exploração do trabalho escravo e da manutenção dos privilégios garantidos a uma pequena elite nacional – que perduraram mesmo após a abolição da escravatura. Diante da escassez de políticas públicas voltadas à reparação dessa desigualdade, chegamos ao século XXI sem oferecer a boa parte da população as possibilidades abertas pelas novas tecnologias.

Além disso, a digitalização de um exame aplicado em centenas de cidades pode elevar os riscos de vazamento de dados e problemas técnicos, em um contexto no qual crimes virtuais se tornam, a cada dia, mais comuns. Dessa forma, a aplicação digital pode despertar a atenção de “hackers” que estejam somente à espera de uma oportunidade para roubar dados – ou, mesmo, apenas tumultuar o processo.

Torna-se evidente, portanto, que a proposta necessita de alguns ajustes. Nesse sentido, o Ministério da Educação deveria instituir grupos de trabalho voltados para a implementação do Enem digital. Essas equipes poderiam ser formadas por técnicos do Governo Federal e representantes da sociedade civil organizada, visando à construção de um plano de informatização das escolas públicas e ao reforço nas ações de segurança de dados do Ministério da Educação. Assim, talvez, seja possível oferecer ao povo brasileiro um exame digital justo e confiável.