Perspectivas e desafios do ENEM Digital

Enviada em 13/07/2020

No ano de 2019, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) divulgou um novo projeto para a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). A novidade refere-se a uma inovação na realização da prova - tradicionalmente aplicada de forma impressa, agora visa uma progressiva alteração para o modo digital. No entanto, a mudança definitiva limita o desempenho de estudantes carentes de acesso à internet, fomentando uma maior segregação social.

Em primeira análise, vale ressaltar o indesejável contraste causado pela desigualdade social: uma considerável parcela da população não goza do acesso à tecnologia. A partir dessa concepção, é indubitável que a aplicação do ENEM digital propicia, de forma indireta, entraves no ingresso da população carente à um ensino superior de qualidade, sendo esse um estorvo no avanço da mobilidade social.

Ainda com relação aos impactos causados pela alteração no modo de aplicação do exame, convém lembrar que muitos jovens da rede pública de ensino não se encontram aptos para o exercício do ENEM digital, visto que muitas instituições educacionais não dispõem de uma infraestrutura adequada à pratica tecnológica. Esses impasses observados com a promulgação do possível método de aplicação da prova ratifica a máxima atribuída ao filósofo Paulo Freire, que sugere à uma sociedade deficitária de educação uma provável imutabilidade, propondo um ensino qualitativo como ferramenta essencial para o desenvolvimento do corpo social.

Dado o exposto, é mister que o Estado tome providências acerca dos possíveis prejuízos que podem ser causados aos estudantes sem acesso à internet com a efetivação do ENEM digital. Urge, portanto, que o Ministério da Educação (MEC), em parceria com empresas filantrópicas, financie projetos de capacitação de alunos de escolas públicas, visando prepara-los para a realização do novo método de avaliação divulgado pelo INEP, bem como, através de verbas governamentais, a capacitação de profissionais aptos à realização desse preparo. Apenas assim será possível minimizar os efeitos excludentes gerados pela discrepância social que se perpetua na realidade do ensino escolar brasileiro.