Perspectivas e desafios do ENEM Digital
Enviada em 15/07/2020
O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) foi criado em 1998 com o intuito de avaliar a qualidade do ensino no País, além de selecionar estudantes para o Ensino de Nível Superior Público e financiamento do privado. Na sua criação e em seu embasamento teórico, o intuito do exame é diminuir a desigualdade social, para, dessa forma, proporcionar aos indivíduos direitos que já estão na Constituição como a ampliação da educação, o trabalho e moradia. Após 22 anos de prova, o atual governo resolveu inovar e criar o ENEM digital, aplicando o uso das tecnologias, entretanto, essa decisão descaracteriza a prova e seus princípios democráticos e igualitários, visto que reforça não só falhas e desigualdades no sistema educacional que precisam ser corrigidas, como também o desinteresse do governo em combatê-las.
Nesse embate, em primeiro ponto, cabe ressaltar que o uso de ferramentas digitais na educação são de extrema importância, porém, essas políticas devem ser bem estruturadas para não reiterar a desigualdade no País. Isso porque, segundo o geógrafo Milton Santos, existe uma dessincronização regional no Brasil, causada pelo processo de industrialização irregular que beneficiou o sudeste e o sul, e com isso, existe uma diferença de investimentos nas regiões e, consequentemente, de infraestrutura. Para exemplificar, de acordo com o censo escolar de 2018, cerca de 70% das escolas no Brasil possuem computadores funcionais, porém quando se refere ao norte e nordeste, esse índice cai para menos de 50%. A partir disso, fica visível que o ENEM digital fere um dos princípios da igualdade, pois enquanto alguns podem escolher a forma de fazer a prova, outros não tiveram alternativa por não haver infraestrutura nas suas cidades.
Somado a isso, o Governo brasileiro apresenta condições para investir em infraestrutura e proporcionar a igualdade no acesso a educação, no entanto, existe certo desinteresse. Para evidenciar isso, segundo o Fundo Monetário Internacional, o Brasil é atualmente a nona maior potência mundial. Mas, se comparado a países que estão abaixo dele nessa escala, como o Peru e Chile, os últimos apresentam melhores indicadores e investimentos em tecnologias educacionais mais eficientes.
Torna-se evidente, portanto, que o uso do ENEM digital e das tecnologias devem ser utilizadas de forma igualitária. Por isso, é importante que o Ministério da Educação, Órgão do Governo responsável pela manutenção do direito à educação no país, crie ferramentas e invista em infraestrutura nas regiões - por exemplo, na compra de computadores, internet e softwares educativos - de forma que ocorra a equidade ao acesso das ferramentas tecnológicas em educação, como no ENEM digital, possibilitando que os estudantes selecionem a modalidade que desejam fazer o exame.