Perspectivas e desafios do ENEM Digital

Enviada em 19/07/2020

Todos os anos, milhares de alunos prestam o exame do ENEM. Muito se fala da dificuldade de um complexo exame interdisciplinar que precisa ser feito em tão pouco tempo e da pressão psicológica de tanta preparação para algumas horas decisivas. Isto posto, naturalmente que o anúncio do ENEM digital veio acompanhado de certa insegurança não só por parte dos estudantes envolvidos, mas por toda a sociedade, que, não sem razão, questiona: diante dos recentes problemas na aplicação do ENEM tradicional, vale a pena confiar tanto sacrifício no novo modelo?

O novo, pela sua própria natureza, traz consigo a insegurança. Houve muita insegurança quando, à época das grandes navegações, o homem se lançou ao mar em busca de novas perspectivas. Quantas pessoas deixam escapar boas oportunidades, justamente pelo “conforto do repetitivo”? De forma análoga, foi o medo do desconhecido que aprisionou as pessoas na caverna, no mais famoso mito de Platão. O ENEM digital é reflexo da transformação que o ensino tem passado nas últimas décadas, que vai desde o quadro digital que substituiu o giz e a louça à explosão do ensino à distância.

A tecnologia tem avançado nas últimas décadas em progressão geométrica, puxada principalmente pela popularização dos smartphones e das redes sociais. Mas até que ponto tem sido inclusiva no Brasil? Segundo o IBGE, 20% dos lares ainda não dispõem de acesso à Internet, e no ensino público, 20% das escolas ainda não dispõe de laboratórios de informática e mais de 80% destas, enfrenta problemas com a velocidade da conexão. Para um exame que se propõe a ser universal, estes dados são bastante excludentes. Os benefício da prova eletrônica são muitos: o Estado deixará de gastar milhões de reais com papel, a prova eletrônica é mais segura, sem contar o impacto ambiental. Contudo, muitos desafios precisam ser considerados, a começar pela infraestrutura requerida, estabilidade do sistema, ergonomia e eventuais intercorrências, a exemplo do último ENEM aplicado.

Desse modo, visando mitigar os impactos negativos desta nova modalidade de exame, é preciso  antes maior empenho na mudança da realidade social, de forma a absorver melhor a novidade, em consonância com o pensamento do jornalista irlandês George Shawn, que diz ser impossível o progresso sem mudança. Nesse sentido, é preciso que o MEC envide esforços de forma a melhorar a qualidade do ensino público, melhorando não só a qualidade em si, mas também promovendo uma maior fluidez com a informatização. Para tanto, será preciso um trabalho conjunto com a ANATEL e órgãos congêneres no sentido de facilitar e baratear o acesso à internet no Brasil, que ainda é um obstáculo. Tudo isto, acompanhando com cuidado a evolução do acesso às tecnologias, de forma que em 2026 o ENEM digital seja, enfim, aplicado de forma universal e isonômica.

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