Play-to-earn: os problemas dos jogos para lucrar, e não mais se divertir

Enviada em 04/11/2022

No filme “Jogador Número 1”, o protagonista Wade participa diariamente da realidade virtual OASIS para fugir da pobreza de seu cotidiano. Contudo, quando o jogo oferece uma fortuna para quem resolver seu enigma, Wade abandona suas pretensões lúdicas e começa a viver unicamente para essa missão. Além da ficção, a modalidade “play-to-earn” é preocupante, já que os problemas dos jogos para lucrar, e não mais para se divertir, são evidentes nos prejuízos para a saúde dos jogadores e no despreparo do Estado para ampará-los.

Nesse contexto alarmante, o relato de Luís assusta quem não tem familiaridade com o tema. Treinador de jogadores para o videogame Axie Infinity, ele narra ter desenvolvido tendinite nas duas mãos até os ombros, porque passa longas horas jogando, cruelmente sem a possibilidade de folga. Então, é óbvio, a partir de uma ocorrência tão chocante, que a gravidade de distanciar os jogos da diversão e aproximá-los do trabalho é tamanha que está se tornando uma questão de saúde pública, exigindo maior atenção de políticas que mitiguem os efeitos desse vício.

Ademais, uma vez que os jogos “play-to-earn” baseiam-se na precarização do trabalho, os limites das empresas privadas são superados, alcançando, assim, a responsabilidade do Estado de garantir o bem-estar social. Já que o sociólogo Max Weber disse que “o trabalho dignifica o homem”, é imoral e até masoquista que esses jogadores ignorem sua exaustão física e mental, além da perda de dignidade por culpa de uma atividade que seria, inicialmente, apenas por diversão. Logo, faz-se necessária a cobrança de uma regulamentação dessa prática absurda.

Portanto, é ideal recuperar a ludicidade dos jogos de forma saudável, sem necessariamente eliminar seu viés de trabalho, com o efeito de atingir o equilíbrio entre ambos. Para tanto, os jogadores, especialmente aqueles na situação abusiva supracitada, devem chamar a atenção para essa pauta, requerindo de seus representantes, por meio da elaboração de leis, a definição de limites para o tempo na frente de seus computadores, bem como a garantia de direitos referentes ao salário e às férias. Outrossim, o Estado, cumprindo sua missão de prezar pela saúde da sociedade, deve buscar o acompanhamento psicológico para esses jogadores, por meio da inclusão desse acréscimo nas leis acima sugeridas.