Polêmicas acerca da expansão do agronegócio no Brasil
Enviada em 15/08/2020
Na mitologia grega, Prometeu foi acorrentado a rochedos de sofrimento sob a pena de ter seu fígado devorado diariamente por um abutre. Embora seja um contexto ficcional, o mito assemelha-se à temática das polêmicas em torno do crescimento do agronegócio no Brasil. À luz disso, questões históricas são recorrentes - uma vez que a concentração de terras na mão de poucos remete à expedição de Martim Afonso de Sousa, em 1530, nos primórdios do período colonial do país. Nesse espectro, são relevantes problemáticas relacionadas com a destruição do meio ambiente e com a desarticulação da agricultura familiar e orgânica - por conta da expansão das grandes propriedades.
A priori, consoante Paul Watson: “Inteligência é a habilidade das espécies para viver em harmonia com o meio ambiente”. Sob esse âmbito, a perpetuação dos seres vivos e a garantia da disponibilidade de recursos indispensáveis às futuras gerações devem ser prioridade. Porém, no panorama atual, esses preceitos muitas vezes são violados em prol da produção em excesso para o abastecimento do mercado consumista - que engole lucratividade desmedida para sua manutenção. Pois, a ganância e a mentalidade liberal - que permeia o ambiente de negócios na contemporaneidade -, muitas vezes, atropelam o equilíbrio da natureza com medidas tais como a destruição de biomas, o desmatamento e a contaminação dos solos e das águas com o uso desenfreado de agrotóxicos.
A posteriori, segundo o filósofo Karl Marx, a História da Humanidade é a História da luta de classes. Sob esse prisma, o ambiente rural também sofre o conflito entre elite opressora e dominados. Não só pela empregabilidade de mão de obra abundante e barata em fazendas, mas também por serviços análogos à escravidão, verifica-se o desmonte da agricultura familiar. Portanto, apesar de responder por cerca de 38% do PIB nacional, o agronegócio acarreta inúmeras situações adversas – até mesmo no tocante à saúde humana, uma vez que a contaminação dos trabalhadores pela exposição a substâncias tóxicas e o consumo de plantas transgênicas ainda trazem muitas dúvidas.
Logo, cabe ao Ministério da Agricultura propor um limite de hectares por proprietário. Do mesmo modo, é mister que o Ministério da Economia promova a criação de programas sociais que incentivem o acesso à terra e sua distribuição mais equitativa. Outrossim, é vital o investimento estatal nas propriedades menores, visando a produção orgânica e a conservação ambiental – que atrai investidores e repõe o capital financeiro ao Estado, em um ciclo. Dessa forma, as polêmicas hão de diminuir, por meio do cultivo de possibilidades da regeneração do fígado da sustentabilidade e subsistência dos pequenos agricultores – os “Prometeus” hodiernos. Assim, romper-se-ão as correntes da incapacidade de competitividade entre as partes e verificar-se-á a mitigação do abutre da ganância.