Possíveis impactos da reforma brasileira do Ensino Médio
Enviada em 29/10/2019
Desde a aprovação legislativa da reforma do ensino médio, o Brasil a guarda e debate as mudanças por vir, particularmente a implementação de um novo currículo obrigatório, cuja carga horária será apenas 60% da atual, e de uma nova gama de disciplinas facultativas que deverão ser escolhidas pelos alunos de forma a preencher os 40% restante da carga horária total, incluindo novos programas de educação profissional. Essa reforma promete vários benefícios aos estudantes, mas pode acabar por degradar a qualidade da educação brasileira caso implementada de forma errônea, demandando, assim, análise adicional de suas particularidades.
De início, pode-se constatar que essa flexibilização do conteúdo percorrido pelos alunos permitirá que eles aprofundem-se nas áreas que mais lhe interessam, em detrimento das que não os atraem ou que lhes oferecem pouca utilidade no futuro. Ademais, a adição de disciplinas de treinamento profissional será deveras frutífera para adolescentes que não desejam ingressar no ensino superior ou que, por qualquer razão, não tem condições de fazê-lo, uma vez que permitirá sua entrada no mercado de trabalho com as qualificações necessárias para evitar a possibilidade de subemprego.
No entanto, há ainda vários casos nos quais esta reforma pode se tornar profundamente nociva à qualidade de nossa educação, dentre os quais se destacam duas instâncias preocupantes: a redução da carga horária obrigatória de matérias de utilidade universal a ponto de que elas não mais possam adequadamente transmitir seus conhecimentos e habilidades aos alunos; e a insuficiência das disciplinas de treinamento profissional para alcançar a supracitada meta de qualificar seus pupilos ou, ao menos, informá-los da existência de boas oportunidades de trabalho além do ensino superior.
Portanto, evidenciam-se os benefícios da nova estrutura do ensino médio, as possibilidades de seu fracasso e o imperativo de impedi-lo. Para tal, o Poder Público deve disponibilizar mais recursos às escolas a fim de garantir seu funcionamento em horário integral, o que aumentaria a carga horária total e impediria o referido aleijamento de certas disciplinas. Juntamente a esses investimentos, as autoridades cabíveis devem, para assegurar o sucesso dos novos programas de educação profissional, formulá-los com base no exemplo da Alemanha, que há décadas tem um sistema bem sucedido no qual alunos cursam uma versão menos acadêmica do ensino médio e, ao mesmo tempo, tornam-se aprendizes num certo ofício manual como a carpintaria.