Possíveis impactos da reforma brasileira do Ensino Médio

Enviada em 22/09/2021

Na história recente, a escola apossou-se de um papel cada vez mais importante na ascenção social das classes menos abastadas devido, por meio dela, a oportunidade de adentrar gratuitamente no ensino superior. Nesse contexto, a reforma do ensino médio vem como força precarizadora, pois, ao possibilitar o ensino técnico em detrimento da obrigatoriedade de algumas disciplinas, acaba dificultando a entrada dos alunos mais pobres na graduação, pois substitui o ensino pleno, voltado ao vestibular e a faculdade, por essa outra via profissional que garante menos oportunidades. Assim, o certo seria não sancionar o novo modelo em pauta, mas fazer séries de investimentos a fim de aumentar as chances de ingresso dos alunos de escolas públicas na universidade.

De fato, o ensino superior é a forma mais acessível para se obter um melhor posicionamento no mercado de trabalho e uma renda maior. Isso se confirma em dados do IBGE, que demonstram que profissionais com alto nível de formação recebem salários maiores em relação àqueles com nível mais baixo. Nesse sentido, a opção do estudante pelo ensino técnico proposto pela reforma do ensino médio pode ajudá-lo a começar a trabalhar mais cedo, no entanto, o prejudica a longo prazo, devido a falta de um plano de carreira mais complexo como o que a graduação oferece, que pode se seguir até o pós-doutorado, com possibilidade de assumir cargos cada vez mais altos e obter mais destaque.

Não obstante, a possibilidade de fazer o ensino técnico, de acordo com a reforma do ensino médio, vem em detrimento da obrigatoriedade de algumas disciplinas, as quais o aluno pode decidir cursar ou não. Segundo a proposta, 40% da carga horária se tornaria opcional para o estudante escolher o percurso de estudos que mais se identifica. Essa situação dificulta ainda mais caso o jovem queira realizar o vestibular ao final dos estudos básicos, pois não fazer essas matérias pode deixa-lo em desvantagem em relação aos discentes de escolas privadas, que continuariam com o padrão antigo, voltado ao desenvolvimento da cidadania e para a aprovação.

Dessa forma, em vez de propor o ensino médio técnico como alternativa para os alunos mais pobres, o congresso poderia defender projetos de lei que busquem facilitar a entrada destes no ensino superior por meio de investimentos na infrastrutura e contratação de novos professores, a fim de ampliar o número de vagas disponíveis para os cursos. Nesse seguimento, deve-se manter todas as atuais disciplinas obrigatórias, a fim de não prejudicar os jovens na execução do vestibular, além de aumentar a parcela de cotas. Assim, mais estudantes poderiam ingressar na graduação, garantindo uma melhor trajetória de carreira para si mesmos, um maior capital cultural e mais oportunidades para assumir cargos elevados.