Preconceito Linguístico

Enviada em 06/10/2018

A obra literária “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, do autor Mário de Andrade, retrata de forma fantasiosa e virtuosa quão vasta é a pluralidade de costumes que constroem a cultura brasileira. Entretanto, tem crescido em território nacional certo comportamento que destoa da visão modernista do escritor, o preconceito linguístico.Catalisado pela busca de um linguajar “ariano” e da má administração cultural pública, a segregação oral, diversas vezes confundida com a famigerada xenofobia, conquista inúmeros adeptos.

O limite entre padrões estéticos e um simples bom senso é discutido em milhares de debates e analogias filosóficas, porém, há alguma dúvida de que menosprezar dialetos históricos da história brasileira é algo de natureza facínora? A vaidade - conceitualmente - tem visado uma “norma oral” inalcançável por meio da segregação linguística. Palavras, expressões e sotaques inatos da cultura tupiniquim são importantíssimos instrumentos identitários não reconhecidos por indivíduos obtusos que almejam sua extinção em prol de uma nefasta unificação oral.

O Poder Público brasileiro demonstra quão imensurável é seu descaso em relação ao patrimônio histórico do país em inúmeras situações, como exemplo tem-se o recente incêndio do museu nacional. Em mais uma de suas letargias, o governo federal não contém um simples planejamento que vise a conservação dos dialetos e sotaques tão importantes culturalmente. Ao levar em consideração o pensamento empírico aristotélico de que o ser torna-se naquilo ao qual constantemente é submetido, subentende-se um possível desaparecimento de traços marcados dos costumes nacionais em decorrência da taciturnidade política.

Dessa forma, fica evidente que medidas são necessárias na resolução do impasse. Primeiramente, o Ministério da Comunicação, adjunto ao Ministério da Cultura, deve explanar publicidades por meio das vias midiáticas que visem a conscientização sobre a importância da variabilidade oral vigente no Brasil e sua preservação. Além disso, o Ministério da Cultura deve ainda desenvolver um aplicativo que contenha informações, curiosidades e a origem de cada “átomo” linguístico tupiniquim, um verdadeiro museu linguístico virtual. Com medidas impostas em busca do respeito e da valorização, os comportamentos sociais nacionais chegarão então próximos à visão virtuosa e pura do autor Mário de Andrade.