Preconceito Linguístico

Enviada em 03/11/2018

O poder das palavras

Com a chegada dos portugueses ao Brasil ocorreu a sobreposição linguística, menosprezando asim o dialeto dos nativos. Atualmente, ainda persiste a prática da hierarquização da língua, ao considerar a norma culta como correta e as demais variações como erradas. Conforme o escritor francês Victor Hugo, “as palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade”. Nesse contexto, a associação estigmatizada das formas de falar ao menor prestígio social ou intelectual gera episódios de desrespeito e desprezo com indivíduos que não se comunicam na forma padrão.

Em primeiro lugar, existe um fator cultural na sociedade brasileira que inferioriza a diversidade linguística. No entanto, existem linguagens adequadas a cada situação, sendo a norma culta exigida em provas e avaliações. De acordo com Albert Einstein, “é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito enraizado”. Assim, é comum a valorização pela mídia de personagens das novelas que se comunicam de modo formal, e a depreciação dos falantes regionais, interioranos ou indígenas, forçando um sotaque que, nem sempre, é real.

Por conseguinte, as pessoas com escolaridade mais baixa ou com características linguísticas de regiões com menos prestígio social se sentem inibidas, em espaços públicos. Esse estigma é um dos fatores que causam o bullying entre crianças e adolescentes nas escolas. Um caso divulgado pelo site G1, que gerou revolta nas redes sociais, foi do médico que debochou de pacientes, porque esses não pronunciavam os nomes das doenças, corretamente. Em contrapartida, o médico e escritor modernista João Guimarães Rosa transformava em obras, os modos de falar diferenciados e criava novas palavras. Dessa forma, percebe-se que a repressão e a exclusão são um erro, visto que o Brasil é um país plural, e a comunicação oral é efetiva quando há entendimento.

Deve-se, portanto, adotar meios para combater a discriminação vocabular. Cabe ao Ministério da Educação, por meio das secretarias municipais, acrescentar no currículo das aulas de português, discussões sobre obras, como as de Guimarães Rosa, que englobam variedades linguísticas do país, além de treinar os professores a promover debates sobre o respeito à diversidade e sobre os momentos oportunos para o uso da norma padrão, a fim de inspirar o senso crítico e respeitoso nos alunos. Já a mídia, devido ao seu papel formador de opinião, deve mostrar em seus programas e novelas, os problemas causados pelo julgamento linguístico, com o objetivo de desconstruir estigmas ultrapassados e degradantes. Assim, será possível aproveitar o poder das palavras sem excluir e reprimir.