Preconceito Linguístico

Enviada em 02/11/2018

“Conhecimento e linguagem estão entrecruzados”, afirma Michel Foucault na sua obra magna “As palavras e as Coisas”. Para ele, fortalecem-se um no outro, assim como se relacionam de modo interdependente. Ademais, em outra obra, denominada “A Microfísica do Poder”, o francês constata que o poder sempre está associado a algum tipo de conhecimento. Analogamente, a realidade tangente às variações linguísticas existentes no Brasil ratificam as ideias do filósofo. Outrossim, a sociedade tende a prestigiar a comunicação cujas bases estão compreendidas na gramática normativa em detrimento de regionalismos e da linguagem coloquial. Como consequência, uma grande parcela da população brasileira sofre com o preconceito linguístico que a discrimina de uma elite dominante.

Com efeito, a análise de Foucault a respeito da linguagem e do conhecimento possui fundamentações históricas. Um bom exemplo foram as primeiras Universidades européias do período medieval, as quais tinham como língua oficial um código raramente compreendido pela população: o latim. Até o século XVII, aproximadamente, quem desejasse ter uma educação superior na Europa, precisaria aprender, ler, escrever e compreender aquela língua morta, mas prestigiada pela academia. Dessa forma, segregava-se a população entre a elite intelectual e o povo. Logo, o preconceito linguístico atual, sofrido pelas camadas populares, tem bases históricas fixadas na própria educação.

Entretanto, a língua falada, sobretudo num país de proporções continentais como o Brasil, é viva, fluida e em constante transformação, seja como consequência da sucessão entre gerações, seja pela distância existente entre as regiões do país. Destarte, a gramática que fundamenta a norma culta não acompanha a fluidez da linguagem oral. Todavia, a literatura modernista valorizou os regionalismos, enaltecendo, por exemplo, a fala tipicamente nordestina tão discriminada. Além disso, os modernistas incluíram a coloquialidade na arte, como exemplificado no poema “Pronominais” de Oswald de Andrade: “Dê-me um cigarro, / Diz a gramática (…) / Deixa disso, camarada, / Me dá um cigarro”.

Diante dos fatos elencados, faz-se necessário compreender que o preconceito linguístico é, soturnamente, um mecanismo da elite para discriminar classes mais baixas que não obtiveram acesso ao conhecimento padrão. Sendo assim, é imprescindível alterar o pensamento elitista que ainda enaltece a norma culta e desmerece as variações linguísticas. Urge, pois, que o Ministério da Educação re-elabore o currículo da educação fundamental, de forma que os professores sejam instruídos a ensinar os regionalismos e os coloquialismos concomitantemente ao ensino da gramática, de modo interdisciplinar, envolvendo Literatura, Geografia e Arte. Dessa maneira, transformar-se-á a relação de poder conferido à gramática normativa, equiparando-a às demais maneiras de expressão linguística.